Slow Blogging

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Não sei você, mas sou de uma geração que só teve contato com a internet na adolescência. Minha infância foi longe das telas (computador naquela época era artigo de luxo) e a percepção do tempo e das coisas eram muito diferentes. Mas também reconheço os benefícios que as tecnologias e o acesso à internet trouxeram para as nossas vidas.

Quando minha mãe comprou um computador lá pra casa a gente não tinha acesso à internet ainda. Usávamos ele só pra fazer trabalhos e jogar joguinhos que já vinham no computador ou que alguém nos emprestava. Depois a internet chegou aqui no interior (era discada) e por isso tínhamos um limite de tempo de uso (só depois da meia noite e no final de semana pra gastar um pulso só! Rs…) Lembro que além do ICQ e MSN (que eu acessava na lan house), criei meu flogão. Ali postava as fotos de qualidade bem baixa tiradas na câmera do Léo, meu amigo. Migrei para o fotolog e também criei meu blog que era basicamente um diário virtual. A gente se abria mesmo, expunha os sentimentos, era tudo bem simples.

Em seguida teve o boom dos blogs de moda que fizeram todo mundo querer ter o seu também (eu inclusive tive um) e depois, com a síndrome do pânico e todas as mudanças pelas quais eu estava passando, criei esse blog, que a princípio era apenas pra registrar minha experiência de ficar um ano sem comprar nada, mas posteriormente acabou se tornando um local pra compartilhar meus anseios, reflexões e aprendizados na busca por autoconhecimento.

Quando me tornei vegana em 2016 fui para o instagram pra compartilhar meus pratinhos e a experiência de ser vegana em uma cidade pequena. A conta foi crescendo e aquele se tornou meu principal foco de produção de conteúdo. Abandonei esse blog, mas depois decidi retomar as publicações aqui também. Entendi que o que eu acredito como vida simples conversa muito com outros movimentos como o veganismo e por isso resolvi voltar pra cá. E por último, veio o podcast que tem sido uma experiência muito prazerosa de produzir.

Então, tô aqui criando conteúdo na internet há 7 anos. Já fui a pessoa super produtiva, que postava todos os dias, até sentir o cansaço me consumir e começar a pensar na quantidade de conteúdo produzido e no quanto é exaustivo produzir com responsabilidade. Entendo que a internet demanda conteúdo rápido e novo todos os dias e geralmente os perfis que produzem dessa forma tem toda uma estrutura pra poder dar conta. Mas quem produz de forma independente se sente sobrecarregado e realmente não consegue acompanhar tudo isso.

Pra vocês terem uma ideia: meu trabalho pra produzir um episódio do podcast leva pelo menos 6 horas entre: pensar no tema, escrever roteiro, gravar, divulgar, criar arte e distribuir nas plataformas. E esse é só um dos conteúdos que eu crio fora o trabalho que tenho e que paga as minhas contas. Tudo isso tem colaborado pra me fazer questionar essa necessidade de novidade o tempo todo. Já existe muita coisa legal disponível que podemos usufruir, aprender, rever e consumir. A quantidade de informação que consumimos tem nos deixado “infoxicados“, exaustos mentalmente. E isso vale pra todo mundo, pois todos são produtores de conteúdo em maior ou menor grau, já que se temos um perfil em uma rede e o alimentamos, estamos produzindo conteúdo.

O que eu mais tenho ouvido das minhas amigas que também produzem conteúdo é que todas estão cansadas de tentar postar todos os dias pra serem vistas pelos seus seguidores. Produzir de forma responsável requer que estudemos, compreendamos o conteúdo, façamos ele conversar com a nossa história e o transformemos em algo que tenha uma pitada da gente pra depois poder compartilhar com outras pessoas. E isso não dá pra ser feito da noite para o dia.

Só que quando nós reduzimos a velocidade dessa produção, perdemos visibilidade, já que as redes são projetadas pra que passemos a maior parte do nosso tempo conectados à elas, pois o que é vendido ali é a nossa atenção (são os anunciantes quem bancam o nosso uso gratuito das redes) e que pode ser convertida na compra de um bem ou serviço. Por isso é interessante que passemos mais e mais tempo conectados. No final das contas a gente precisa escolher o que fazer e tentar encontrar um ponto de equilíbrio que não sacrifique nossa paz e nossa saúde mental. Devemos encontrar alternativas que nos possibilitem continuar a realizar o nosso trabalho on-line, mas não nos sentirmos culpadas por não dar conta de tudo, nem de produzir em alta velocidade.

E aí que entra o slow blogging que nada mais é do que “postar devagar”. É reduzir a velocidade das postagens e produzir com mais calma, respeitando nosso ritmo (mesmo que isso implique não seguir as regras das redes de estar presente todos os dias). O slow blogging conversa muito com o slow living e a vida simples, onde priorizamos as coisas que são importantes pra nós. Por aqui reduzir o volume de produção tem dado certo. No começo eu me sentia meio culpada, mas acho que cada um sabe onde aperta o sapato e de nada vale um feed perfeito e a saúde mental péssima, não é mesmo?

Tenho tirado os domingos pra não usar internet e tem sido maravilhoso. Aos domingos eu sou só a Bruna. Apenas existo e vivo a vida real. Nas segundas eu retorno e a cada semana, venho tentando entender o que eu quero mudar nesse trabalho com as redes, em como posso produzir no meu tempo, do meu jeito, sem pressão. E tô feliz em seguir esse caminho.

No episódio dessa semana do podcast falei um pouco sobre isso e sobre a produção de conteúdo.

Encontrar a felicidade nas coisas simples

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Acho que a felicidade é aquela sensação de “quentinho no coração” que acontece em situações muitas vezes inusitadas. Eu, por exemplo, já senti a felicidade lavando a louça! Mas calma aí que eu vou explicar.

Era domingo, meu dia de folga (longe de redes sociais e qualquer tecnologia que exija minha atenção, em que uso o celular só em caso de precisar mandar uma mensagem importante ou fazer uma ligação). Final do dia e lá vou eu preparar algo pra comer. Vi três berinjelas murchando e me lembrei que tinha comprado gergelim pra fazer tahine, mas o corre da semana não permitiu. Vou preparar o tahine (que gosto de comer com pão) e pra aproveitar as berinjelas e “limpar” o processador, fazer babaganoush. Sempre que faço algo que gruda demais no processador penso numa receita que contenha esse mesmo ingrediente pra evitar desperdiçar e usar a receita pra limpar o aparelho.

Preparei tudo e olhei pro rádio na prateleira das panelas logo em cima da pia. Lembrei que adoro a Rádio Educativa que só toca música que eu gosto. Muitas vezes eu chego a pensar que a escolha das músicas é tão boa (no caso, tem tanto a ver com meu gosto) que poderia perfeitamente ser uma das playlists que costumo fazer no Spotify.

Fim de tarde é a hora em que também trago 2 dos meus 5 cães pra dentro da casa pra me fazer companhia enquanto faço um lanche. Bob e Pipoca estavam tranquilinhos, deitados no chão da cozinha, alguma música dos anos 80 estava tocando e eu lavando a louça. Ali, naquele momento tão normal e nada extraordinário eu me senti feliz. Feliz com a união de tudo o que eu gosto: estar ali preparando uma comida na companhia dos meus bichinhos e ouvindo música boa.

E eu quis “agarrar” aquele momento igual quando a gente quer porque quer agarrar uma borboleta pra contemplar sua beleza de perto mas ela, assustada, foge. E aquele momentinho se foi. Igual borboleta. Quando eu pensei em como queria fazê-lo durar, ele escorreu pelas minhas mãos junto com a água da louça que eu lavava. Apesar da brevidade eu ainda senti aquele quentinho no coração por um tempo e lembrei que Guimarães Rosa escreveu que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

Mas e se a gente ficasse mais atenta e menos descuidada? Talvez assim a gente conseguisse ser feliz nas coisinhas simples: em ter a companhia dos nossos bichinhos, em ler um livro no final da tarde, em curtir aquela música que a gente adora, em comer uma refeição saborosa preparada com carinho… E aí, com o coração quentinho e alimentado dessa bem querença, talvez fique mais fácil seguir em frente e a gente fique preparada pras coisas não tão felizes que a vida coloca no nosso caminho. Por que a felicidade é assim mesmo: bate na porta, toma um café, faz um afago e se vai. E a gente só precisa estar atenta pra partilhar esse momento com ela.


 

Esse é o tema da semana do podcast. Clique para ouvir:

 

vivendo uma vida mais simples

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Dia desses me peguei pensando sobre todo esse caminho que venho trilhando desde que conheci a proposta de viver uma vida mais simples. São 7 anos em que tudo se transformou de uma maneira tão intensa que parecem existir duas pessoas: a que viveu antes e depois desse processo.

É claro que com toda essa bagagem a gente segue revendo, amadurecendo, aprendendo e adaptando tudo o que esse viver mais simples propõe. Sinto que começamos querendo nos desfazer de tudo loucamente, meio que como uma forma de organizar a nossa bagunça e quem sabe, no meio a tanta coisa acumulada, encontrarmos partes de nós que achávamos estarem perdidas.

Já desfiz de muita coisa, assim como adquiri outras. Entendi que reduzir coisas é só uma pequena parte desse processo que, simbolicamente, nos convida a esvaziar espaços dentro de nós mesmas que vivem acumulados: muito trabalho, muitas atividades, muitas pessoas. Essa vida simples que a gente busca não é sobre abandonar tudo e morar no mato. Tem mais a ver com se conhecer melhor e se sentir confortável com quem você é, e com suas escolhas. É sobre a gente despir as máscaras que criamos para que sejamos aceitas e nos sintamos parte de um todo, para finalmente assumir nossa verdadeira identidade e viver de acordo com o que toca nosso coração.

Experimentei muitas fórmulas pra simplificar, mas só consegui essa “vida mais simples” quando abracei minha história, reconheci meus limites, aceitei meus defeitos e parei de comparar a minha jornada com a de outras pessoas. Quando me libertei da ideia que tinha sobre simplicidade compreendi que todos podemos ser mais simples independente de onde estejamos ou de quantas peças de roupas tenhamos. Entendi que a gente tem coisa demais porque acredita que a felicidade está nelas e que talvez se começarmos a procurar em outros lugares, nas experiências, nos pequenos detalhes, talvez a felicidade esteja mais perto do que a gente imagina.

 

E-book Viva um Ano mais Consciente

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Desde que me entendo por gente gosto de escrever. Já tive muitos diários, vários blogs já escrevi poesias, colunas em jornais… Enfim, foram muitas as coisas sobre as quais falei ao longo de três décadas de vida Ao final do ano passado finalmente realizei algo que tanto queria: lançar meu primeiro e-book!

A ideia de escrevê-lo surgiu de maneira repentina e sua escrita foi um processo ao mesmo tempo intenso e fluido. Esse livro é fruto das minhas experiências vividas e de toda a minha caminhada até aqui, cheia de erros e acertos, como toda vida é. Olhando pra trás consigo perceber o quanto os momentos mais difíceis me proporcionaram aprendizados que me fizeram mudar completamente, me redirecionando, fazendo com que eu me redescobrisse. Não foi fácil, mas não mudaria nada nessa caminhada. Sinto-me feliz com a pessoa que venho me tornando.

Esse livro tem como proposta trabalhar uma aspecto da vida por mês ao longo do ano, nos convidando a realizar pequenas mudanças que nos permitam nos aproximar da vida que desejamos viver! Abordo: autoconhecimento, alimentação, exercícios físicos, finanças, responsabilidade ambiental e social, dentre outros aspectos da nossa vida. São propostas simples e possíveis de serem colocadas em prática pois acredito que pequenos passos nos trazem mudanças menores, porém duradouras.

Sem mais delongas, vou deixar aqui o link para quem desejar adquiri-lo. Seu valor é de R$15,00 e comprando-o você colabora com meu trabalho que já existe nas redes há 7 anos. Espero que gostem e consigam aplicar o que ele propõe. 🙂

Minha jornada por uma vida mais simples

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Seis anos se passaram desde que iniciei minha jornada por uma vida mais simples. Tudo teve início com a síndrome do pânico que me fez rever a maneira como me relacionava com tudo: pessoas, trabalho, consumo e especialmente comigo mesma. Nessa busca por respostas tive o primeiro contato com o minimalismo e vivenciei a experiência de ficar um ano sem compras, o que me fez repensar a forma como lidava com meu dinheiro, as coisas que eu já tinha e o que eu valorizava. Percebia que muitas vezes comprava coisas para satisfazer uma questão emocional, não por necessidade. Se estava triste, comprava algo. Ansiosa? Bastava entrar numa loja virtual e comprar algo que sabia que não precisava só pelo prazer de comprar e quando o produto chegava pelo correio já não tinha mais graça. Nesse hiato de compras pude perceber que poderia viver muito bem com tudo o que já tinha e que o dinheiro poupado ao deixar de comprar coisas que não precisava poderia ser gasto de outras maneiras.

Comecei a pensar também no impacto ambiental das coisas que compramos: o que vestimos, o que comemos, que empresas apoiamos. Entendi que não bastava pensar apenas no produto ou serviço em si: era preciso olhar também para os valores dessa organização, suas ações em relação aos trabalhadores, ao meio ambiente e a sociedade. Quando compramos algo de uma empresa é como se disséssemos: “ei, eu concordo com o que você faz e por isso te dou meu dinheiro”. (Reconheço que falo do lugar de quem tem o privilégio de poder escolher de quem comprar enquanto muitas outras pessoas não o podem fazer). A partir disso busquei conhecer mais a respeito das empresas das quais comprava e a fazer escolhas que estivessem mais alinhadas com meus valores, o que significou deixar de comprar de muitas delas por diversos fatores.

No meio dessas mudanças conheci o vegetarianismo e, posteriormente o veganismo e compreendi que ser vegana tinha muito a ver com os valores que norteavam minha vida: sempre gostei de animais, sempre me preocupei com o meio ambiente, com minha saúde e com as pessoas e o veganismo me mostrou que todas essas questões estão conectadas. Foi bom encontrar em um movimento social uma maneira de viver que me permitisse praticar o que eu tanto acreditava e valorizava.

A partir dessa busca por uma vida mais simples conheci também os conceitos de “essencialismo” e de “simplicidade voluntária“. O primeiro nos convida a  “fazer menos, porém melhor” e nos estimula a dizer mais “nãos” para coisas que compreendemos não ter tanta importância a fim de que nos sobre tempo e energia para dedicar ao que realmente tem valor e importância seja no nosso trabalho ou na nossa vida pessoal. Sobre o assunto recomendo a leitura do livro Essencialismo, de Greg McKeon. O segundo tem como base cinco pilares:

  1. Simplificação da vida material: menos coisas demandam menos tempo e menos sacrifício financeiro para mantê-las;
  2. Priorização de ambientes e instituições menores estimulando o contato interpessoal e o sentido coletivo;
  3. Autodeterminação: menor dependência de instituições econômicas e políticas e maior controle sobre o próprio destino, ou seja, mais autonomia no viver)
  4. Preocupação ambiental: perceber a conexão e a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente compreendendo a finitude dos recursos naturais e a necessidade de preservá-los;
  5. Crescimento pessoal: todos os 4 aspectos anteriores culminando na evolução pessoal;

Depois de muito estudar sobre, tive a sensação de ter encontrado no conceito de simplicidade voluntária um respaldo para o que experimentei nos últimos anos. Compreendi que através de seus fundamentos somos (e seremos) capazes de viver uma vida que tenha mais valor, onde priorizamos coisas que realmente são importantes não apenas pra nós, mas também para os outros (pessoas, meio ambiente, sociedade). Para quem deseja conhecer mais a respeito dele, tenho duas indicações de leitura: “Simplicidade Voluntária”, de Duane Elgin e “Por uma vida mais simples“, de André Cauduro D’Angelo.

Estando em contato com diversos conceitos e aplicando muitos deles na minha vida, entendo que viver uma vida mais simples é uma experiência muito pessoal e que precisamos levar em consideração a realidade em que estamos inseridos para implementar suas práticas em nossas vidas. Por exemplo: dentro do conceito de minimalismo, existem pessoas que implementam o uso do armário cápsula. Ele pode funcionar bem pra uma pessoa e não funcionar pra outras e tudo bem. Acredito ser mais importante compreender o conceito e aplicá-lo nas áreas que julgarmos necessárias.

Li um livro que contava que um advogado conversava com Mahatma Gandhi sobre sua dificuldade em abrir mão de seus livros, que eram algo muito importante pra ele. Então Gandhi lhe respondeu que: “enquanto você obtiver conforto e ajuda interior de alguma coisa, deve mantê-la. Se abrir mão dela como sacrifício ou como senso de dever, você continuará a desejá-la e essa vontade insatisfeita lhe trará problemas. Só renuncie algo quando isso não exercer mais atração em você”Ao mesmo tempo que entendo que não podemos nos forçar a abrir mão de coisas e sair destralhando tudo pra “cumprir as regras do minimalismo” também é preciso ser muito honesto consigo mesmo para reconhecer o que, de fato ainda tem ou não importância na sua vida. Não é sobre um quantidade x de pertences, mas sobre ser livre, apesar de possuí-los.