Desacostumando o olhar

Sou nascida e criada na mesma cidade, ou seja, são 33 anos morando no mesmo lugar. Quando era bebê morei em um bairro diferente, mas aos 6 meses mudei para o lugar onde moro, numa casa que era só quarto, cozinha e banheiro e só me mudei de novo quando essa casa foi demolida pra que a casa que eu moro hoje fosse construída. Então posso dizer que moro há pelo menos 30 anos aqui, o que me faz ser muitíssimo familiarizada com meu entorno.

Os últimos 9 anos mudaram muito a minha relação com o local onde vivo. Claro que tenho vontade de viajar pra outros lugares, conhecer cidades e países, mas mudei a minha perspectiva no sentido de olhar com carinho para a minha cidade.

O fato de ter começado a pedalar, por exemplo, me permitiu conhecer lugares que por anos me foram desconhecidos: cachoeiras, estradinhas, trilhas. Depois vieram as caminhadas, e por mais que eu esteja andando pelo mesmo trajeto que costumo percorrer de bicicleta, é diferente. Caminhar, correr e pedalar no mesmo lugar, nos traz percepções diferentes do espaço.

Viver a pandemia em uma cidade pequena também tem sido uma experiência diferente do que viver em um grande centro. Aqui, em 2 minutos tenho acesso a uma área verde, com pouco movimento de pessoas. Dá pra sentar ali, ler um livro, levar os cães pra passear… Consigo até ficar sem máscara respirando ar puro.

Aqui consigo correr ao ar livre, tendo uma vista incrivelmente bonita, sem trânsito, tudo isso pertinho da cidade. Ou seja, não preciso gastar tempo ou dinheiro me locomovendo pra um lugar que me permita estabelecer essa conexão com a natureza.

Como vocês podem notar, eu usufruo muito desses espaços. Muita gente daqui não sai por aí como eu pra pedalar, correr ou fazer trilhas. E eu também não fui assim por muito tempo, tanto que só conheci muitos dos lugares que conheço hoje as 24 anos, quando comprei minha bicicleta e comecei a pedalar.

Em um tempo em que parecemos precisar de novos estímulos o tempo todo, é um desafio a gente “desnormalizar” nosso olhar e conseguir apreciar as coisas boas e bonitas que estão ao nosso redor. É um exercício diário nos treinar para ver detalhes que passam despercebidos porque nos acostumamos com que o vemos.

O que costumo fazer é percorrer o mesmo local por trajetos e horários diferentes, observar a posição do sol a cada estação, a mudança da vegetação em cada época do ano, pesquisar novas trilhas, conversar com pessoas que já estão acostumadas nessas andanças pra poder conhecer novos lugares.

Aí que quero compartilhar com vocês um vídeo que gravei para o meu canal no youtube na última semana, mostrando um pouquinho de uma caminhada pelas estradas de Congonhal. Já percorri esse trajeto muitas e muitas vezes ao longo dos anos e estou sempre me encantando com a paisagem. Gravar esse vídeo é uma forma de levar vocês pra um desses rolês comigo. Espero que gostem.

9 anos depois: eu continuo simplificando?

No final do ano tirei um tempinho pra pensar sobre os acontecimentos não só dos últimos 365 dias, mas da minha caminhada nesses últimos anos.

Se você é novo por aqui e não me conhece, prazer, sou a Bruna. A história desse blog começou em 2013. Naquele período eu estava passando por uma crise de síndrome do pânico que me fez questionar a minha vida como um todo e foi a partir desses questionamentos que tive meu primeiro contato com o minimalismo e a ideia de simplificar a vida.

No auge das minhas crises de ansiedade, nos momentos em que achava que fosse morrer por alguma doença que eu não tinha ideia qual era, uma pergunta ficava martelando na minha cabeça: “Se eu morresse hoje, com 24 anos, o que eu teria feito da minha vida?” E foi essa pergunta que me fez mergulhar num processo muito dolorido de autoconhecimento que me trouxe até aqui.

Nas minhas muitas pesquisas sobre tudo (porque naquela época o que eu mais fazia era ler e estudar sobre qualquer assunto que pudesse trazer algum sentido pra minha vida) descobri o minimalismo: a princípio como uma forma de vestir elementos mais neutros e simples e depois como um “estilo de vida” em que as pessoas buscavam ter poucas coisas.

É importante dizer que eu não era uma pessoa acumuladora ou que tenha se endividado por comprar, mas olhando bem, eu tinha coisa demais: coisas que não usava ou coisas que foram compradas de forma impulsiva pra preencher momentaneamente alguma tristezinha da vida. Eu poderia muito bem passar bons anos sem comprar nada, levando em conta a quantidade de coisas que eu tinha. Só que outra coisa me pegou: eu não tinha muito critério na hora de comprar. Só comprava. Não pensava na qualidade do produto, na matéria prima, se era um investimento que valia a pena tendo como base minhas necessidades e meu estilo de vida.

A partir dos depoimentos de pessoas que levavam uma vida minimalista, vi que aquela parecia uma forma interessante de viver a vida. Foi então que criei o blog para compartilhar minha experiência de ficar um ano sem fazer compras. Minha ideia era a de usar todas as coisas que eu já tinha, entender o que me levava a consumir sem tantos critérios e ver como isso impactaria minha vida.

No meio desse processo, outras transformações foram acontecendo: me reconectei com a espiritualidade (que sempre foi importante pra mim), fiz descobertas significativas na terapia, passei a pedalar (que foi um esporte que me transformou muito), questionei meu trabalho e o que eu queria fazer da vida, adotei um animalzinho e passei a atuar na proteção animal… Ao final do meu ano sem compras eu tinha me tornado uma pessoa muito diferente da que havia começado aquele projeto. E pra finalizar, na semana em que terminei o projeto, mais uma mudança: me tornei ovolactovegetariana (que se tornou uma das mudanças mais importantes da minha vida).

Após meu ano sem compras passei a questionar ainda mais o consumo: na época eu estava fazendo uma pós graduação em marketing e decidi escrever meu artigo sobre a relação entre marketing e consumo e foi uma experiência muito interessante. De lá pra cá me tornei vegana (que me fez repensar ainda mais meu consumo, não apenas por questões ambientais, mas também por levar em conta o uso de matéria prima animal nos componentes – além dos testes em animais).

Em 2016 conheci o conceito de simplicidade voluntária e encontrei nele algumas respostas que não encontrava no minimalismo. Com o passar do tempo, percebi que o minimalismo falava muito mais sobre soluções individuais sem levar em consideração o grande problema do consumo: o capitalismo e suas estruturas. E que somente questionando o sistema no qual estamos inseridos, buscando alternativas e cobrando responsabilidade do poder público e das grandes corporações é que teremos mudanças significativas em problemas como a desigualdade social e as mudanças climáticas. No episódio #61 do meu podcast falei um pouco sobre esse assunto.

Vamos falar então de como as coisas estão hoje, 9 anos depois do início dessa caminhada e analisando tudo o que vivenciei.

Já começo falando dos erros, que foram muitos: levei tudo a ferro e fogo, fui extrema em alguns aspectos (ou 8 ou 80, sabe?) e com isso construí uma relação pouco saudável com o dinheiro, pois passei a vê-lo como algo ruim; me desfiz de coisas no calor do momento e me arrependi; já quis largar tudo e sair por aí sem rumo, viver numa cabana, viver com o mínimo possível… Experimentei algumas coisas, mas percebi que não era mim. Que as experiências de outras pessoas podem ter dado certo pra elas, mas que a minha história era outra e que eu tinha que encontrar esse ponto de equilíbrio.

Compreendi, por exemplo, que armários cápsula não funcionam pra mim. E que embora eu seja vegana e defensora da simplicidade voluntária eu não tenho que me vestir de um jeito específico (tipo hippie ou então só com tecidos leves e soltos). Eu amo rock, amo me vestir de preto, amo bota. E que o mais importante é levar em conta o que faz sentido pra mim, pra minha forma de viver a vida.

Vestido: Repassa / Tênis: Ahimsa (marca de calçados veganos)

Tento priorizar a compra de itens de segunda mão (ultimamente tenho comprado pelo Repassa. Se você quiser comprar por lá, aproveita pra usar meu cupom de desconto: VIRANDOVEG15 pra ter desconto na primeira compra), revitalizar peças antigas (tô com um post no rascunho de um blazer que foi do meu avô, feito por um alfaiate em 1982 – nesse ano eu posto sobre essa história), trocar ou comprar em brechós… Mas também compro em lojas físicas ou virtuais, dando preferências pra pequenos produtores.

Nessa quase uma década de “simplificação”, sinto que meu grande desafio tem sido o de encontrar o equilíbrio entre viver as contradições de um sistema capitalista e seguir firme com os valores que norteiam a minha vida. Que “simplificar” é mais complexo do que simplesmente “destralhar” nossas casas e armários se repetimos as compras impulsivas e sem critérios. Que decisões individuais são sim, importantes e necessárias, mas que é através de políticas públicas e sociais que veremos mudanças significativas no mundo.

Sinto que, de fato, encontrei essa vida mais simples: me conheci melhor e aprendi a reconhecer meus limites; abandonei coisas (planos, pessoas, projetos, expectativas de outras pessoas) para fazer e viver o que acredito que faça sentido pra mim; me permiti mudar e fluir com os acontecimentos da vida e me comprometi a compartilhar minhas experiências e a construir, através das minhas ações diárias, pelo menos um pouquinho do mundo no qual eu gostaria de viver.

Andanças

Nas últimas semanas chamei meu irmão e meu namorado, coloquei uns lanchinhos e água na mochila, acordamos de madrugada e saímos pra andar. Caminhamos 16 e 17km com uma semana de descanso entre cada uma das caminhadas pra poder descansar. Lazer sem gastos e sem aglomeração.

Já havia feito esses dois trajetos de bicicleta, mas caminhando a percepção é muito diferente. Por mais que eu observe e curta o passeio de bike e que eu pare pra fotografar e apreciar a paisagem, ele “rende” muito mais do que quando feito a pé. Não que tenha que render, mas quando somos nós, nossos passos e o peso da mochila é tudo diferente. Muda a percepção do tempo, vemos, ouvimos e sentimos as coisas de outra maneira (e eu gosto das duas).

Eu tenho uma “coisa” com caminhos assim, como os da foto que escolhi pra esse post. Eu gosto demais desse jogo da luz passando por entre as folhas das árvores, da tonalidade desse caminho que é de um verde mais fechado, da mistura de cheiros de folhas novas com as que estão se decompondo… Mas eu gosto mesmo de como eu me sinto quanto estou ali.

Uma caminhada dessas me traz uma noção de presença muito grande. Presto atenção nos sons dos pássaros e do vento nas árvores. Observo onde piso, olho pro céu, sinto o calor do sol na pele, me deixo ser abraçada pelo vento que refresca e esqueço dos problemas. Nem que eu queira pensar em qualquer coisa que possa estar me aborrecendo no momento, eu consigo. Me sinto completamente imersa no que estou fazendo. É a meditação na ação.

Minha mente é inquieta e está sempre pensando no que preciso fazer e no que falta… Não tem descanso. E cada dia mais eu sinto essa necessidade de sair por aí, a pé ou de bicicleta, pra poder me silenciar, pra conseguir ouvir o que todo o ruído externo do trabalho, das preocupações e do mundo me impede tanto de ouvir quanto de enxergar. E quando retorno de uma andança dessas, embora o corpo se canse, sinto que minha mente está aliviada. Consigo ver as coisas com mais clareza, ouvir minha intuição e renovar minhas energias para retomar as atividades do dia a dia.

Tenho encontrado muita satisfação nessas caminhadas. Me sinto viva, presente e consciente, sentindo que vale a pena cada gotinha de suor, o cansaço e a dor nos pés e nas pernas.

7 anos

Eu tenho uma “questão com número 7”. Já li que ele está associado à harmonia: 7 chakras, as 7 cores do arco-íris, 7 notas musicais… E agora, em 2020, completo 7 anos do início da minha jornada de autoconhecimento. Pelo menos a desse plano (por que acredito que não vivemos apenas essa vida e pronto, acabou, mas isso é outro assunto).

Hoje apareceu uma lembrança na minha rede social sobre a finalização do meu ano sem compra. Eu tinha muita coisa sobre ele no antigo blog que acabou se perdendo. Eram registros mensais de como estava sendo essa experiência, mas quero voltar aqui em outro momento pra contar como foi e os meus aprendizados a respeito disso.

O que queria compartilhar hoje é que não foi uma jornada fácil. Ao longo desses anos todos passei por momentos muito, muito difíceis em que eu só queria desistir. Esse despertar de que tanto ouvimos falar é um processo doloroso. Doloroso porque as nossas certezas se vão. Doloroso porque percebemos que nossos alicerces foram construídos sob a areia e não em um terreno sólido e firme e aí nos resta demolir ideias que estiveram conosco por tantos anos para reconstruir outras que estamos começando a conhecer.

E como é um caminho novo é fácil a gente se perder. Às vezes andamos por trilhas sem sinalização, erramos e precisamos voltar e começar de novo. Outras vezes seguimos por um caminho já aberto, percorrido por outras pessoas, com uma paisagem bonita e lugar pra descansar. Andamos ora sozinhos, ora acompanhados…

Falando de mim, da minha história, eu não mudaria nada. Se tudo o que eu passei me trouxe até aqui, eu agradeço. Agradeço pelas tempestades que sobrevivi, pelos amigos que fiz e dos quais me despedi, pelas pessoas com as quais convivi e que mostraram o que eu quero e o que eu não quero ser, pelos meus erros e acertos e por aprender a ouvir a minha intuição, que é a minha bússola interior, que me guia e me permite viver experiências que talvez eu não entenda agora, mas que em outro momento serei capaz de compreender.

Vou fazer 32 anos esse ano, mas sinto como se estivesse fazendo 7. Sete anos em que sinto que tenho mais consciência das minhas escolhas que encontrei razões pelas quais viver, razões que me motivam todos os dias a me aprimorar a ajudar a construir uma realidade diferente daquela que vivo hoje, pensando não só em mim mas em todos. O mundo não tem que ser bom só pra mim. Eu não posso me deitar tranquila enquanto outras pessoas não tem acesso ao que lhes é direito básico.

E assim eu sigo, esperando viver muitos outros anos e aberta para os aprendizados que a vida tem a me oferecer.

Slow Blogging

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Não sei você, mas sou de uma geração que só teve contato com a internet na adolescência. Minha infância foi longe das telas (computador naquela época era artigo de luxo) e a percepção do tempo e das coisas eram muito diferentes. Mas também reconheço os benefícios que as tecnologias e o acesso à internet trouxeram para as nossas vidas.

Quando minha mãe comprou um computador lá pra casa a gente não tinha acesso à internet ainda. Usávamos ele só pra fazer trabalhos e jogar joguinhos que já vinham no computador ou que alguém nos emprestava. Depois a internet chegou aqui no interior (era discada) e por isso tínhamos um limite de tempo de uso (só depois da meia noite e no final de semana pra gastar um pulso só! Rs…) Lembro que além do ICQ e MSN (que eu acessava na lan house), criei meu flogão. Ali postava as fotos de qualidade bem baixa tiradas na câmera do Léo, meu amigo. Migrei para o fotolog e também criei meu blog que era basicamente um diário virtual. A gente se abria mesmo, expunha os sentimentos, era tudo bem simples.

Em seguida teve o boom dos blogs de moda que fizeram todo mundo querer ter o seu também (eu inclusive tive um) e depois, com a síndrome do pânico e todas as mudanças pelas quais eu estava passando, criei esse blog, que a princípio era apenas pra registrar minha experiência de ficar um ano sem comprar nada, mas posteriormente acabou se tornando um local pra compartilhar meus anseios, reflexões e aprendizados na busca por autoconhecimento.

Quando me tornei vegana em 2016 fui para o instagram pra compartilhar meus pratinhos e a experiência de ser vegana em uma cidade pequena. A conta foi crescendo e aquele se tornou meu principal foco de produção de conteúdo. Abandonei esse blog, mas depois decidi retomar as publicações aqui também. Entendi que o que eu acredito como vida simples conversa muito com outros movimentos como o veganismo e por isso resolvi voltar pra cá. E por último, veio o podcast que tem sido uma experiência muito prazerosa de produzir.

Então, tô aqui criando conteúdo na internet há 7 anos. Já fui a pessoa super produtiva, que postava todos os dias, até sentir o cansaço me consumir e começar a pensar na quantidade de conteúdo produzido e no quanto é exaustivo produzir com responsabilidade. Entendo que a internet demanda conteúdo rápido e novo todos os dias e geralmente os perfis que produzem dessa forma tem toda uma estrutura pra poder dar conta. Mas quem produz de forma independente se sente sobrecarregado e realmente não consegue acompanhar tudo isso.

Pra vocês terem uma ideia: meu trabalho pra produzir um episódio do podcast leva pelo menos 6 horas entre: pensar no tema, escrever roteiro, gravar, divulgar, criar arte e distribuir nas plataformas. E esse é só um dos conteúdos que eu crio fora o trabalho que tenho e que paga as minhas contas. Tudo isso tem colaborado pra me fazer questionar essa necessidade de novidade o tempo todo. Já existe muita coisa legal disponível que podemos usufruir, aprender, rever e consumir. A quantidade de informação que consumimos tem nos deixado “infoxicados“, exaustos mentalmente. E isso vale pra todo mundo, pois todos são produtores de conteúdo em maior ou menor grau, já que se temos um perfil em uma rede e o alimentamos, estamos produzindo conteúdo.

O que eu mais tenho ouvido das minhas amigas que também produzem conteúdo é que todas estão cansadas de tentar postar todos os dias pra serem vistas pelos seus seguidores. Produzir de forma responsável requer que estudemos, compreendamos o conteúdo, façamos ele conversar com a nossa história e o transformemos em algo que tenha uma pitada da gente pra depois poder compartilhar com outras pessoas. E isso não dá pra ser feito da noite para o dia.

Só que quando nós reduzimos a velocidade dessa produção, perdemos visibilidade, já que as redes são projetadas pra que passemos a maior parte do nosso tempo conectados à elas, pois o que é vendido ali é a nossa atenção (são os anunciantes quem bancam o nosso uso gratuito das redes) e que pode ser convertida na compra de um bem ou serviço. Por isso é interessante que passemos mais e mais tempo conectados. No final das contas a gente precisa escolher o que fazer e tentar encontrar um ponto de equilíbrio que não sacrifique nossa paz e nossa saúde mental. Devemos encontrar alternativas que nos possibilitem continuar a realizar o nosso trabalho on-line, mas não nos sentirmos culpadas por não dar conta de tudo, nem de produzir em alta velocidade.

E aí que entra o slow blogging que nada mais é do que “postar devagar”. É reduzir a velocidade das postagens e produzir com mais calma, respeitando nosso ritmo (mesmo que isso implique não seguir as regras das redes de estar presente todos os dias). O slow blogging conversa muito com o slow living e a vida simples, onde priorizamos as coisas que são importantes pra nós. Por aqui reduzir o volume de produção tem dado certo. No começo eu me sentia meio culpada, mas acho que cada um sabe onde aperta o sapato e de nada vale um feed perfeito e a saúde mental péssima, não é mesmo?

Tenho tirado os domingos pra não usar internet e tem sido maravilhoso. Aos domingos eu sou só a Bruna. Apenas existo e vivo a vida real. Nas segundas eu retorno e a cada semana, venho tentando entender o que eu quero mudar nesse trabalho com as redes, em como posso produzir no meu tempo, do meu jeito, sem pressão. E tô feliz em seguir esse caminho.

No episódio dessa semana do podcast falei um pouco sobre isso e sobre a produção de conteúdo.

Encontrar a felicidade nas coisas simples

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Acho que a felicidade é aquela sensação de “quentinho no coração” que acontece em situações muitas vezes inusitadas. Eu, por exemplo, já senti a felicidade lavando a louça! Mas calma aí que eu vou explicar.

Era domingo, meu dia de folga (longe de redes sociais e qualquer tecnologia que exija minha atenção, em que uso o celular só em caso de precisar mandar uma mensagem importante ou fazer uma ligação). Final do dia e lá vou eu preparar algo pra comer. Vi três berinjelas murchando e me lembrei que tinha comprado gergelim pra fazer tahine, mas o corre da semana não permitiu. Vou preparar o tahine (que gosto de comer com pão) e pra aproveitar as berinjelas e “limpar” o processador, fazer babaganoush. Sempre que faço algo que gruda demais no processador penso numa receita que contenha esse mesmo ingrediente pra evitar desperdiçar e usar a receita pra limpar o aparelho.

Preparei tudo e olhei pro rádio na prateleira das panelas logo em cima da pia. Lembrei que adoro a Rádio Educativa que só toca música que eu gosto. Muitas vezes eu chego a pensar que a escolha das músicas é tão boa (no caso, tem tanto a ver com meu gosto) que poderia perfeitamente ser uma das playlists que costumo fazer no Spotify.

Fim de tarde é a hora em que também trago 2 dos meus 5 cães pra dentro da casa pra me fazer companhia enquanto faço um lanche. Bob e Pipoca estavam tranquilinhos, deitados no chão da cozinha, alguma música dos anos 80 estava tocando e eu lavando a louça. Ali, naquele momento tão normal e nada extraordinário eu me senti feliz. Feliz com a união de tudo o que eu gosto: estar ali preparando uma comida na companhia dos meus bichinhos e ouvindo música boa.

E eu quis “agarrar” aquele momento igual quando a gente quer porque quer agarrar uma borboleta pra contemplar sua beleza de perto mas ela, assustada, foge. E aquele momentinho se foi. Igual borboleta. Quando eu pensei em como queria fazê-lo durar, ele escorreu pelas minhas mãos junto com a água da louça que eu lavava. Apesar da brevidade eu ainda senti aquele quentinho no coração por um tempo e lembrei que Guimarães Rosa escreveu que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

Mas e se a gente ficasse mais atenta e menos descuidada? Talvez assim a gente conseguisse ser feliz nas coisinhas simples: em ter a companhia dos nossos bichinhos, em ler um livro no final da tarde, em curtir aquela música que a gente adora, em comer uma refeição saborosa preparada com carinho… E aí, com o coração quentinho e alimentado dessa bem querença, talvez fique mais fácil seguir em frente e a gente fique preparada pras coisas não tão felizes que a vida coloca no nosso caminho. Por que a felicidade é assim mesmo: bate na porta, toma um café, faz um afago e se vai. E a gente só precisa estar atenta pra partilhar esse momento com ela.


 

Esse é o tema da semana do podcast. Clique para ouvir:

 

E-book Viva um Ano mais Consciente

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Desde que me entendo por gente gosto de escrever. Já tive muitos diários, vários blogs já escrevi poesias, colunas em jornais… Enfim, foram muitas as coisas sobre as quais falei ao longo de três décadas de vida e no final do ano passado finalmente realizei algo que tanto queria: lançar meu primeiro e-book!

A ideia de escrevê-lo surgiu de maneira repentina e sua escrita foi um processo ao mesmo tempo intenso e fluido. Esse livro é fruto das minhas experiências vividas e de toda a minha caminhada até aqui, cheia de erros e acertos, como toda vida é. Olhando pra trás consigo perceber o quanto os momentos mais difíceis me proporcionaram aprendizados que me fizeram mudar completamente, me redirecionando, fazendo com que eu me redescobrisse. Não foi fácil, mas não mudaria nada nessa caminhada. Sinto-me feliz com a pessoa que venho me tornando.

Esse livro tem como proposta trabalhar uma aspecto da vida por mês ao longo do ano, nos convidando a realizar pequenas mudanças que nos permitam nos aproximar da vida que desejamos viver! Abordo: autoconhecimento, alimentação, exercícios físicos, finanças, responsabilidade ambiental e social, dentre outros aspectos da nossa vida. São propostas simples e possíveis de serem colocadas em prática pois acredito que pequenos passos nos trazem mudanças menores, porém duradouras.

Sem mais delongas, vou deixar aqui o link para quem desejar adquiri-lo. Seu valor é de R$20,00 e comprando-o você colabora com meu trabalho que já existe nas redes há 7 anos. Espero que gostem e consigam aplicar em suas vidas o que proponho nele!

Minha jornada por uma vida mais simples

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Seis anos se passaram desde que iniciei minha jornada por uma vida mais simples. Tudo teve início com a síndrome do pânico que me fez rever a maneira como me relacionava com tudo: pessoas, trabalho, consumo e especialmente comigo mesma. Nessa busca por respostas tive o primeiro contato com o minimalismo e vivenciei a experiência de ficar um ano sem compras, o que me fez repensar a forma como lidava com meu dinheiro, as coisas que eu já tinha e o que eu valorizava. Percebia que muitas vezes comprava coisas para satisfazer questões emocionais, não por necessidade. Se estava triste, comprava algo. Ansiosa? Bastava entrar numa loja virtual e comprar algo que sabia que não precisava só pelo prazer de comprar e quando o produto chegava pelo correio já não tinha mais graça.

Sei que nem tudo é “preto no branco”. A gente não compra só porque precisa e também é necessário que compreendamos que estamos inseridos em um sistema que constantemente nos instiga a consumir. De vez em quando eu também caio nas ciladas do capitalismo e acabo comprando algo que não precisa, mas nesse hiato de compras pude perceber que poderia viver muito bem com tudo o que já tinha, mas que não se tratava de nunca mais comprar coisas, e sim de compreender o que me levava a comprar ou então como eu poderia fazer melhores escolhas na hora das compras.

Comecei a pensar também no impacto ambiental daquilo que consumimos: o que vestimos, o que comemos, que empresas apoiamos quando compramos algo. Entendi que não bastava pensar apenas no produto ou serviço em si: era preciso olhar também para os valores dessa organização, suas ações em relação aos trabalhadores, ao meio ambiente e a sociedade. Quando compramos algo de uma empresa é como se disséssemos: “ei, eu concordo com o que você faz e por isso te dou meu dinheiro”. (Reconheço que falo do lugar de quem muitas vezes pode escolher de quem comprar enquanto muitas outras pessoas não o podem fazer). A partir disso busquei conhecer mais a respeito das empresas das quais comprava e a fazer escolhas que estivessem mais alinhadas com meus valores, o que significou deixar de comprar de várias grandes corporações e priorizar o pequeno produtor sempre que possível.

No meio dessas mudanças conheci o vegetarianismo e, posteriormente o veganismo e compreendi que ser vegana tinha muito a ver com os valores que norteavam minha vida: sempre gostei de animais, sempre me preocupei com o meio ambiente, com minha saúde e com as pessoas e o veganismo me mostrou que todas essas questões estão conectadas. Foi bom encontrar em um movimento social uma maneira de viver que me permitisse praticar o que eu tanto acreditava e valorizava.

A partir dessa busca por uma vida mais simples conheci também os conceitos de “essencialismo” e de “simplicidade voluntária“. O primeiro nos convida a  “fazer menos, porém melhor” e nos estimula a dizer mais “nãos” para coisas que vamos percebendo que não tem tanta importância, a fim de que nos sobre tempo e energia para dedicar ao que realmente tem valor seja no nosso trabalho ou na nossa vida pessoal. Sobre o assunto recomendo a leitura do livro Essencialismo, de Greg McKeon.

O segundo conceito, de simplicidade voluntária, ou seja, de escolher viver de uma forma mais simples, possui os seguintes 5 pilares:

  1. Simplificação da vida material: menos coisas demandam menos tempo e menos sacrifício financeiro para mantê-las;
  2. Priorização de ambientes e instituições menores estimulando o contato interpessoal e o sentido coletivo;
  3. Autodeterminação: menor dependência de instituições econômicas e políticas e maior controle sobre o próprio destino, ou seja, mais autonomia no viver;
  4. Preocupação ambiental: perceber a conexão e a interdependência entre os seres humanos e o meio ambiente compreendendo a finitude dos recursos naturais e a necessidade de preservá-los;
  5. Crescimento pessoal: todos os 4 aspectos anteriores culminando na evolução pessoal;

Depois de muito estudar sobre, tive a sensação de ter encontrado no conceito de simplicidade voluntária um certo alinhamento com o que vinha experimentando na prática nos últimos anos. Compreendi que através de seus fundamentos somos (e seremos) capazes de viver uma vida que tenha mais valor, onde priorizamos coisas que realmente são importantes não apenas pra nós, mas também para os outros (pessoas, meio ambiente, sociedade). Para quem deseja conhecer mais a respeito dele, tenho duas indicações de leitura: “Simplicidade Voluntária”, de Duane Elgin e “Por uma vida mais simples“, de André Cauduro D’Angelo.

Estando em contato com diversos conceitos e aplicando muitos deles na minha vida, entendi que viver uma vida mais simples é uma experiência muito pessoal e que precisamos levar em consideração a realidade em que estamos inseridos para implementar essas práticas em nossas vidas. Por exemplo: dentro do conceito de minimalismo, existem pessoas que implementam o uso do armário cápsula. Ele pode funcionar bem pra uma pessoa e não funcionar pra outras. Acredito ser mais importante compreender o conceito e aplicá-lo em nossas vidas nas áreas que julgarmos necessárias.

Li recentemente um livro que contava que um advogado conversava com Mahatma Gandhi sobre sua dificuldade em abrir mão de seus livros, que eram algo muito importante pra ele. Então Gandhi lhe respondeu que: “enquanto você obtiver conforto e ajuda interior de alguma coisa, deve mantê-la. Se abrir mão dela como sacrifício ou como senso de dever, você continuará a desejá-la e essa vontade insatisfeita lhe trará problemas. Só renuncie algo quando isso não exercer mais atração em você”Ao mesmo tempo que entendo que não podemos nos forçar a abrir mão de coisas e sair destralhando tudo pra “cumprir as regras do minimalismo” também é preciso ser muito honesto consigo mesmo para reconhecer o que, de fato ainda tem ou não importância na sua vida.

Sinto que ao longos dos anos venho aprimorando e amadurecendo as ideias de simplicidade, conectando-as com outras questões sociais importantes (como ideias de decrescimento e bem viver) e me atendo cada vez menos a supostas regras do quanto de coisa eu devo ter ou como devo me aparentar para ser considerada uma pessoa simples, trazendo as ideias para uma forma que permita que cada vez mais pessoas possam compreender os impactos do consumo excessivo e que podemos e devemos pensar em alternativas a esse estilo de vida que tem se mostrado prejudicial não só a nós humanos, mas especialmente ao meio ambiente.