Descobertas

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Estava tomando banho quando olhei pela frestinha da janela e percebi que tem uma frutinha nascendo na maior árvore aqui do quintal.  A gente sempre chamou de “ameixa amarela mas joguei aqui no google e descobri que é a tal da nêspera que não sei por que sempre achei que fosse um tipo de laranja.Descobri também que tem dois limoeiros carregados e um pé de mexerica. Ou seja, logo poderemos saborear mais três frutas (quer dizer, o limão já estamos conseguindo consumir). Além disso aqui tem uma jabuticabeira, dois pés de manga, um mamoeiro, uma pimenteira e mais algumas flores espontâneas. Lembro que tinha um pé de manjericão imenso, mas não sei o que rolou que tiraram… E eu sou muito apaixonada por manjericão.

Engraçado como a gente as vezes olha pras coisas mas não as vê. Isso se tornou normal, mas não é natural. Nosso natural é viver mais devagar, é observar e absorver as coisas, é ter tempo de conversar com calma, mas tá todo mundo no corre. A gente sempre encontra os amigos e eles (ou a gente mesmo) dizem que “só vim dar um oi rapidinho porque tô com pressa”, e quando a gente se dá conta mais uma semana passou e cadê? O que a gente fez com o tempo que escapou por entre os dedos feito água?

Eu sei que a gente tem que seguir em frente com a vida mas eu sinto uma saudade tão grande de uns tempos. Tempos que não tinham telefone pra tirar nossa atenção enquanto estamos com as pessoas, um tempo em que as coisas pareciam não passar tão depressa e a gente conseguia encontrar os amigos, conversar e rir um tanto sentado na praça. A gente vivia mais devagar. O ano demorava pra passar. Hoje a gente pisca é janeiro. Pisca de novo é dezembro.

Eu viajei na conversa, mas é por que no final das contas a gente não conseguir apreciar as coisas e observar nosso entorno tem a ver com as vidas corridas que a gente leva. Mas eu tô me recusando a seguir esse script. Tô me recusando a viver na correria e falar isso de boca cheia. Eu sei que tá tudo errado nesse sistema que acaba com o nosso tempo, mas se a gente puder resistir, que assim seja.

 

Sobre dias que são duros

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Inspiro. Expiro. Ufa. Que bom é poder respirar sem ter o nariz entupido. Essa noite mal consegui dormir com a alergia atacada. Só me lembro de tentar cochilar sentada encostada na parede, mas não deu muito certo. E não é corona. É rinite mesmo. Minha cabeça dói. Meu ombro também. Lembrei que quando eu era mais nova bastava dormir pra dor de cabeça passar. Hoje, aos 31, se eu durmo com dor de cabeça, acordo com ela também. Só passa depois de tomar algum remédio.

Inspiro. Expiro. Minha respiração não tá das melhores. Parece que a densidade do ar anda mais pesada. O ar entra pelas minhas narinas pra poder me manter viva e o solto esperando tirar de mim também essa angústia de não saber o que fazer nem o que esperar.

São duas da tarde e já perdi as contas de quantas vezes respirei fundo, bem fundo. Parece que hoje tá chovendo pepino, que as pessoas estão mais grosseiras que o normal, entendendo tudo como elas querem. E aí eu respiro mais e mais fundo e parece que não tem ar suficiente pra dar conta de tudo isso. Fecho os olhos pensando que ao abrir tudo vai estar diferente, mas tá igualzinho.

Abro um site pra ler notícia: não dá pra manter o otimismo. Tô me comprometendo a ver notícias só em alguns momentos, de preferência umas 2 horas depois que eu acordo, pra não começar o dia já ansiosa. Prefiro me iludir pelo menos por umas duas horinhas. Decidi que não vou me exercitar hoje não. Passei um creme no cabelo, tomei banho mais cedo e fui ler um livro. Aí me dei conta que talvez eu não esteja lendo tanto porque a vista não tá lá essas coisas e o médico desmarcou a consulta por causa do risco de contaminação.

Ouvi um pedaço de um podcast que falava sobre como a dor de cabeça também está relacionada com a ansiedade e a tensão. É, faz sentido.Não quis tomar remédio e o banho deve ter me ajudado a relaxar, porque tô sentindo só um fundinho da dor. Dias como os de hoje me fazem pensar que as vezes a gente só vai vivendo um segundo depois do outro até dar a hora de dormir e espera que amanhã seja pelo menos um pouquinho diferente.

 

Decidi escrever um diário de quarentena e compartilhá-lo aqui como uma forma de colocar ordem nos pensamentos e sentimentos. 

 

Alvorada

Não sei quando que começou meu encantamento pela transição da noite para o dia. Quer dizer, é bem provável que tenha acontecido a partir do momento que comecei a levar meus cães pra passear nesse horário e tive a oportunidade de contemplar esse momento. Esse era o único horário em que todos podiam ir soltos e não havia um grande movimento de pessoas.

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Mesmo que eu esteja sempre no mesmo lugar, a cada dia capto algo diferente. Tudo depende da estação e da hora em que o registro é feito e com isso fui percebendo o que mais me agrada: gosto muito dos dias em que o céu tem algumas nuvens pois a luz do sol nelas se transforma em um espetáculo, mas também gosto dos dias com céu limpo e luz alaranjada, bem típico do outono. Essa contemplação me fez enxergar a beleza e as particularidades de cada estação, os movimentos e a duração das transições.

Agora, em isolamento, tenho sentido muita falta desses momentos, já que no outono é a época em que mais gosto de fazer esses registros. Mas tudo bem, existem outras coisas pra registrar e aprendo a me adaptar à circunstância que que está disponível. Espero que em breve poder apreciar tudo isso de novo.

 

Por aqui…

 

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Tenho tentado lidar com o atual momento da maneira que dá: um pouco de informação e um pouco de meme pra não entrar em pânico. Também estou mantendo minha rotina de produção de conteúdo pras minhas redes sociais (e para as quais trabalho), lido, me exercitado aqui no quintal, tentando manter contato com os amigos e ficando na companhia dos doguinhos.

Leituras edificantes (especialmente as espiritualistas) e pensamento elevado também tem sido meus grandes aliados nesse momento, mas ontem a tarde, depois de fazer meus exercícios físicos olhei para o céu e chorei. Fiquei pensando em quando teremos a chance de poder caminhar por aí novamente e contemplar todas as coisas “banais”. Temos percebido que é quando não podemos usufruir de algo que reconhecemos seu valor.

A gente sabe que esse momento vai passar, mas o medo de perder quem amamos e incerteza do que nos aguarda lá na frente tem nos deixado em um estado muitas vezes difícil de administrar. Estamos ansiosos, desanimados, pois ao mesmo tempo em que temos tempo livre pra fazer o que pudermos, a nossa cabeça parece não conseguir focar por muito tempo em uma atividade. Tem havido uma cobrança pra gente fazer coisas, mas não precisamos nos forçar a nada. Faça um curso online, veja um filme e uma série apenas se quiser.

Uma amiga comentou dia desses que as atividades manuais tem ajudado muito nesse momento: pintar alguma coisa, reformar outra (com materiais que temos em casa), mexer na terra, reaproveitar potinhos pra se tornarem recipientes pra plantar, organizar aquela papelada que tá meio bagunçada, fazer uma limpa no guarda roupa… Hoje mesmo me comprometi a dar uma geral no quarto, lavar meus sapatos, pensar em algumas coisas pra cozinhar com os ingredientes que tenho aqui, trabalhar um pouco e descansar também. Aliás, a gente costuma falar que trabalho é só o que é remunerado, mas não é bem por aí: tudo o que demanda tempo e dedicação nossa é trabalho, mesmo que não recebamos nada.

Entre toda essa mistura de sentimentos e sensações, a gente segue mais do que nunca vivendo um dia de cada vez e colaborando para o bem comum fazendo a nossa parte. Nunca foi tão importante (e urgente) a somatória das nossas ações para que, juntos, possamos conseguir o resultado desejado. Sigamos.