Tudo passa, mas às vezes demora

Confesso que não sou lá a pessoa mais paciente desse mundo e às vezes eu só queria ter um botão pra apertar em que tudo se resolvesse magicamente: aquele processo enrolado que deixa a vida amarrada, o trabalho que anda devagar, aquele mal resolvido com a amiga que nenhuma dá o braço a torcer… Seria bem bom, né? Um botãozinho e pronto. Tudo certo.

Pra mim nem sempre é fácil entender o tempo das coisas. Quer dizer, eu entendo racionalmente que algumas coisas levam tempo pra acontecer ou pra se resolver, mas aqui dentro os sentimentos viram uma bagunça: o que eu faço nesse tempo? Como lidar com essa espera?

Ao esperar, tenho a sensação de que não tenho controle e de que tô deixando a vida na mão do destino. Eu até gosto (mais na teoria do que na prática) daquela frase que diz que “tudo tem um tempo certo pra acontecer” e me pego agarrada nela pra poder lidar com coisas que não consigo resolver. Tem horas que fico de boa, mas tem horas penso que essa “força superior” na qual eu acredito só pode estar me trollando (até me pego imaginando a cara dos meus mentores espirituais rindo dos meus surtos).

2020 chegou colocando boa parte dos nossos planos e vontades em modo suspenso. Algumas coisas até conseguimos adaptar pra colocar em prática, mas muitas ideias foram pra caixinhas e sabe-se lá quando vamos conseguir tirá-las de lá. O que nos resta é o trabalho da paciência. Respirar fundo. Contar até 10. Até 100. Até mil. Dar umas surtadas. Passar um dia inteiro sem fazer nada, querer chorar e largar tudo pra vender miçanga na praia. Depois ficar empolgada com todo o e qualquer indício de que as coisas estão mudando.

Eu sei que uma hora vou rir desse desespero todo pra resolver as coisas. Que talvez um dia eu seja mais paciente e madura e sábia, que entenda de verdade esse lance do tempo das coisas, mas no momento eu tô me permitindo sentir o que vier: o riso, o choro, o prazer, o desespero. E sei que por mais que eu não compreenda isso agora, tudo vai passar. Tudo passa. Mas às vezes demora.

Reduzindo a velocidade

Às vezes eu cito a mim mesma, sem pretensões, porque vejo que algo que eu disse continua fazendo muito sentido. Já escrevi uma vez em um texto aqui o blog que em tempos de avanço, recuar é um ato de coragem. Esse recuo pode ser uma parada ou pode ser simplesmente reduzir a velocidade e andar mais devagar.

Há quem pense que viver “no corre” é bom porque nos faz chegar logo “lá”, naquele lugar que a gente imagina ser maravilhoso. Esse “lá”, na nossa mente, é de fato incrível. É “lá” que a felicidade está. É “lá” que as coisas vão ser boas. Mas é engraçado que esse “lá” parece não chegar nunca. Por mais que a gente dê um passo na sua direção, ele está sempre um passo na nossa frente.

Mas de vez em quando a gente chega “lá” e é uma sensação muito gostosa. Temporariamente. A gente se sente viva, capaz, forte, incrível. Mas esse sentimento costuma passar e logo aparece outro “lá” pra gente chegar. É como se nunca pudéssemos estar satisfeitos com as coisas como elas já são ou já estão. E isso é o que nos mantém dependentes desse sistema. Nossa insatisfação é muito lucrativa porque é através dela que nos “mimamos” comprando coisas que muitas vezes nem precisamos.

Lembro que no meu aniversário do ano passado eu recebi uma carta linda de uma amiga muito especial e uma frase que ela escreveu me marcou muito: “é a caminhada que compensa o destino”. Se ficamos preocupadas demais com o destino não curtimos a caminhada, que é onde passamos a maior parte do tempo.

Mesmo que a gente reduza a velocidade, a gente vai chegar “lá”, só que de um jeito diferente. Talvez demore um pouco mais, mas em compensação vamos apreciar o caminho, vamos nos divertir, vamos curtir os processos sem pressa porque sabemos que uma hora ou outra a gente chega lá. E pra mim isso tem feito todo sentido. Percebi que estava me cobrando muito por coisas que não dependem de mim e por coisas que embora estejam nos meus planos, não sei quando poderão acontecer por inúmeros fatores externos. Nem tudo dá certo só porque a gente quer e ter isso em mente tem me feito me divertir mais no rolê da vida.

Por aqui sigo no meu ritmo, observando como as coisas mudam no decorrer dos dias, percebendo os períodos em que tenho mais disposição e fazendo o que precisa ser feito, mas também reduzindo a velocidade e parando pra descansar quando percebo que isso também é preciso, sem culpa. Uma hora eu chego lá.

Ps. esse foi o tema do episódio da semana passada do poscast. Para ouvir clique aqui.

Leituras: Falso Espelho

Sempre quis trazer dicas de livros por aqui e falar da minha percepção a respeito da leitura deles. Não sou crítica, não manjo desses paranauês, mas acho legal dividir partes e reflexões que me tocaram durante uma leitura.

Sei que 2020 ainda não acabou, mas posso afirmar que Falso Espelho, da Jia Tolentino, foi meu livro preferido desse ano. Esse é o tipo de livro que faz com que a gente queira ler tudo de uma vez, porque é uma leitura fluida e interessantíssima, ao mesmo tempo em que não queremos terminar muito rápido pra não ficarmos “órfãos” de algo que mexe tanto com a gente. Eu sou muito assim com os livros que eu gosto, ficou com pena de ler rápido demais e vou intercalando com outras leituras pra poder saborear cada página sem medo de acabar sem eu nem me dar conta. Aconteceu isso enquanto eu assistia a série Queer Eye. Não vi a quantidade de episódios de cada temporada e quando me dei conta, aff, acabou. Como assim?

Eu gosto muito de leituras sobre a sociedade, de análises de comportamento, de linhas do tempo e comparativos e acho maravilhoso quem sabe fazer essa vai e vem e consegue conectar todas as coisas de um jeito que faz sentido. Queria muito ser assim, mas minha cabeça bagunça um pouco as ideias. Talvez seja falta de prática, quem sabe exercitando mais a escrita eu consiga melhorar essa questão.

Não lembro ao certo onde foi que eu vi a indicação dessa leitura, mas provavelmente foi no instagram. Tenho uma pasta de arquivos só de referências de leitura, uma lista que nunca tem fim. Comprei, sentei pra ler e logo no primeiro capítulo o tema é internet. Era o assunto que eu estava questionando aos montes, repensando, querendo entender como tudo mudou tão rápido e como nos tornamos tão dependentes dessa conexão. Não lembro se já falei, mas costumo brincar que são os livros que me encontram, e não o contrário e esse livro chegou exatamente num momento em que eu estava estudando sobre isso (até gravei alguns episódios do podcast sobre esse tema).

O livro tem 9 ensaios sobre temas diversos, mas que se conectam entre si. Ela fala sobre casamento (uma visão com a qual me identifico demais sobre essa indústria milionária e performática que o casamento virou e sobre a não vontade de fazer parte de tudo isso. É possível viver com uma pessoa sem a necessidade de uma formalização, viu?); a respeito de mulheres “difíceis” e de como esse tipo de mulher quando está exposta na mídia, especialmente, tem suas vidas controladas e julgadas e de que como o sexismo está presente em tudo; sobre a construção das personagens mulheres na literatura (meninas que desejam viver grandes aventuras como Anne de Green Gables, adolescentes que começam a perceber que seu único destino é o casamento e mulheres adultas que lidam com a enfadonha vida de viver para marido, casa e família.

Ela também fala sobre sua experiência de participar de um reality show enquanto ainda era adolescente, sobre sua criação religiosa e sua experiência com drogas e sobre a cultura do estupro perpetuadas nas universidades através das fraternidades, além de falar das gerações de golpistas que se dão bem (como Trump e Bezzos).

Eu não queria terminar esse livro tão rápido (e nem foi tão rápido assim) e adoraria poder ser amiga da Jia, comer um lanche conversando com uma mulher tão inteligente, aqueles papos em que a gente mergulha nos assuntos e esquece de tudo ao redor. Sinto que termino essa leitura querendo ler mais autorAs mulheres (salvei todas as referências que ela cita no livro) e quero muito escrever mais, organizar melhor as ideias, colocar o que penso pro mundo, debater, estudar e aprender. Se eu pudesse recomendar só um livro pra você ler esse ano, certamente seria esse.

O ano do sim

No último domingo foi meu aniversário. Parece que aos 25 eu pisquei os olhos e quando percebi já cheguei nos 32. Que coisa doida! De vez em quando tenho a sensação de não me lembrar de muitas coisas que aconteceram ao longo desses anos, como se tudo tivesse sido vivido de forma rápida demais e não tivesse dado tempo de assimilar as experiências.

Coincidentemente (ou não) no final de semana que antecedeu meu aniversário peguei pra ler o livro “O ano em que disse sim”, da Shonda Rhimes. No livro ela conta um pouco sobre sua própria vida, mas o tema central é uma experiência transformadora pela qual ela passou que a fez passar a questionar os não’s que ela dava pra tantas coisas. A partir desse momento ela decide ter um “ano do sim” e muitas mudanças significativas acontecem na sua vida quando ela decide abraçar as boas oportunidades e experiências que cruzam seu caminho.

Gosto muito de trazer essas reflexões pra minha vida e fiquei pensando em quantos não’s automáticos eu costumo dar para as coisas. O não é uma espécie de zona de conforto que a gente tem pra deixar tudo do jeito que está ou pra não incomodar ninguém. E foi a partir dessa leitura eu decidi que também queria ter um “ano do sim”: para oportunidades, convites, projetos, mas especialmente um ano do sim pra mim, para coisas que são importantes pra mim e que deixo de lado por inúmeras questões.

Muitas vezes temos a ideia de que nos colocarmos em primeiro lugar não é legal. Essa lógica patriarcal de que nós mulheres somos “cuidadoras por natureza” e que por isso é natural que nos abdiquemos para ajudar os outros é muito cruel. Quando compreendemos que essa ideia furada é um artimanha desse sistema, nos libertamos para nos colocar em primeiro lugar e que não há absolutamente nada de errado nisso.

Dizer não pra pessoas folgada, pra relacionamentos abusivos ou para situações que nos tiram a paz é o melhor SIM que dizemos pra nós mesmas. Quando estabelecemos nossos próprios limites e compreendemos até onde podemos ir, tiramos um peso enorme das nossas costas e não deixamos que outras pessoas estabeleçam qualquer limite pra nós. Isso é libertador!

Só a sensação de pensar que um ano inteiro de sim’s me aguarda é boa demais. E eu espero que você também inaugure um ano em que você, sua saúde física, mental e emocional sejam cada vez mais sua prioridade. Ah, e esse é o tema da semana passada do podcast. Para ouvir clique aqui.

Nós vamos mudar o mundo?

Quando decidi gravar um episódio sobre esse assunto para o podcast fiquei com receio de ser mal interpretada. Hoje em dia na internet muitas falas são distorcidas e rola cancelamento a toda hora. Mas felizmente acho que a forma como coloquei esse tema ficou clara o suficiente pra ninguém vir me questionar sobre o porquê de eu pensar dessa forma.

Por muito tempo eu achei que eu fosse realmente a responsável por mudar o mundo. Pensava que a minha ação, no meio de tanta coisa que acontece por aí, seria o estopim para o mundo finalmente mudar. Que prepotência da minha parte, né? Inclusive tem uma frase do Alex Castro que gosto muito e que depois de ler, se tornou o lema da minha vida: “Não ser egocêntrico ao ponto de achar que posso mudar o mundo. Não ser egocêntrico ao ponto de nem tentar.”

A partir do momento que tirei das minhas costas o fardo de “salvadora do mundo” senti que de fato consegui agir mais, por mais estranho que isso pareça. Quando compreendi que eu não poderia mudar o macro e as estruturas, cheguei à conclusão de que não só posso como devo agir no micro: minha vida, minha casa, minha família, meu grupo de amigos, minha vizinhança, minha cidade.

Assim ficou mais fácil pensar no que me cabe. A frase que é título desse post de forma alguma é uma maneira de me isentar da responsabilidade que me cabe. É justamente por entender que algumas mudanças não dependem de mim, que me dedico àquilo que posso fazer. Com essa consciência eu converso com meus amigos, estudo, dialogo e penso em como trazer essas ideias para o mundo real, que é onde as coisas realmente acontecem.

A internet tem uma potência imensa em disseminar mensagens. Se não fosse por ela você provavelmente não estaria lendo esse texto nem ouvindo meu podcast. Mas ela traz o conteúdo, a informação, a reflexão, o convite para a mudança. Cabe a nós decidir o que fazer com esse conteúdo e essa informação. Eu tenho decidido agir e espero que você também possa fazer essa escolha. Que consiga alinhar seus ideais e seu discurso com aquilo que faz no dia a dia. É assim, a minha mudança somada com a sua, que poderemos caminhar na construção do que acreditamos ser um mundo justo para todos os que nele habitam.

***

Para ouvir o episódio do podcast sobre esse tema clique aqui.

Pausas, análises, processos

Daqui a pouco faz um mês que eu não escrevo aqui. Acho que todos nós meio que perdemos a dimensão do tempo e a sensação é que agosto, o “mês eterno” passou num piscar de olhos. Que ano! E por que eu não tô escrevendo? Por que a escrita tá travada. Eu sento aqui, abro os muitos rascunhos que estão salvos, mas nenhum deles parece fazer sentido. Sabe quando você quer muito fazer uma coisa mas parece que algo te impede? É essa a minha sensação.

Tenho pensado muito sobre tudo isso: sobre as pausas, análises e processos pelos quais minha vida tem passado e entendido como eu funciono, compreendido melhor meus momentos, meu ritmo, como a vida acontece pra mim e tirando o peso da comparação com a vida de outras pessoas. Na internet é muito fácil a gente se comparar. E isso acontece por que nas redes a gente só vê o resultado, não o processo. A gente vê um pedacinho do que a pessoa é, a pontinha do iceberg de toda uma complexidade que é ser humano e achamos que “pra fulano tudo é fácil” quando na verdade criamos nossos avatares nas redes e fazemos uma curadoria do que compartilhamos.

No livro “Falso Espelho”, Jia Tolentino traz um conceito de teoria identitária muito interessante, de um sociólogo chamado Erving Goffman. Essa teoria fala diz que estamos representando o tempo todo em nossas interações sociais, como forma de criar uma impressão no público. Não que façamos isso de “má fé”, mas é natural que ajamos de formas diferentes, tipo quando a gente tá passando por um problema pessoal, mas no trabalho performa como se tudo estivesse bem (confesso que sempre tive muita dificuldade nisso). Goffman fala também quem em casa podemos ter a sensação de de não estarmos representando, de senti que estamos nos bastidores e isso faz muito sentido, ne? E olha só se não tem a ver com nosso comportamento nas redes sociais! Quem nunca olhou pra uma pessoa nas redes e pensou “essa pessoa ao vivo não é nada disso”? Esse livro tem me feito pensar muito e agora tô até lembrando de um vídeo que eu provavelmente já compartilhei aqui, mas acho que ilustra isso da performance nas redes.

Se por um lado temos acesso a muita informação, à possibilidade de conhecermos novas pessoas, culturas, de mostrar nosso trabalho, de dar voz a cada mais pessoas e causas, de ampliar nossa percepção do mundo, também estamos exaustas. O excesso de informação suga a nossa energia, faz com que tenhamos conhecimento de coisas sobre as quais não temos controle e não podemos mudar e de perceber toda a nossa impotência. Amplificamos nossas vozes através das redes sociais ao mesmo tempo em que criamos a ilusão da ação. Achamos que só o trabalho digital é importante e é claro que ele tem força, mas esquecemos que um discurso sem ações políticas e práticas, não provoca as mudanças significativas que queremos e precisamos no mundo.

E aí que entra a importância da pausa e da análise do que a gente tem feito. Essa é uma ação que precisa ser realizada com uma certa frequência para que possamos fazer os ajustes em nós e na direção na qual desejamos seguir. Só que essas análises precisam ser feitas sem pressa. Não é do dia pra noite. São processos diversos. Alguns levam mais tempo, outros menos. E se não respeitamos isso, criamos nossas personagens e vivemos uma vida que não é nossa, que é sobre o outro: suas opiniões e expectativas do que devemos ser.

Por aqui sigo num momento de revisão. Estar prestes a completar 32 anos tem me feito pensar onde cheguei e onde quero chegar, se faz sentido performar quem sou hoje ou se existem máscaras que precisam não apenas ser despidas, mas jogadas fora porque hoje não condizem com quem sou.

Ps. esse é o assunto também do Episódio 23 do Podcast. Para ouvir, clique aqui:

7 anos

Eu tenho uma “questão com número 7”. Já li que ele está associado à harmonia: 7 chakras, as 7 cores do arco-íris, 7 notas musicais… E agora, em 2020, completo 7 anos do início da minha jornada de autoconhecimento. Pelo menos a desse plano (por que acredito que não vivemos apenas essa vida e pronto, acabou, mas isso é outro assunto).

Hoje apareceu uma lembrança na minha rede social sobre a finalização do meu ano sem compra. Eu tinha muita coisa sobre ele no antigo blog que acabou se perdendo. Eram registros mensais de como estava sendo essa experiência, mas quero voltar aqui em outro momento pra contar como foi e os meus aprendizados a respeito disso.

O que queria compartilhar hoje é que não foi uma jornada fácil. Ao longo desses anos todos passei por momentos muito, muito difíceis em que eu só queria desistir. Esse despertar de que tanto ouvimos falar é um processo doloroso. Doloroso porque as nossas certezas se vão. Doloroso porque percebemos que nossos alicerces foram construídos sob a areia e não em um terreno sólido e firme e aí nos resta demolir ideias que estiveram conosco por tantos anos para reconstruir outras que estamos começando a conhecer.

E como é um caminho novo é fácil a gente se perder. Às vezes andamos por trilhas sem sinalização, erramos e precisamos voltar e começar de novo. Outras vezes seguimos por um caminho já aberto, percorrido por outras pessoas, com uma paisagem bonita e lugar pra descansar. Andamos ora sozinhos, ora acompanhados…

Falando de mim, da minha história, eu não mudaria nada. Se tudo o que eu passei me trouxe até aqui, eu agradeço. Agradeço pelas tempestades que sobrevivi, pelos amigos que fiz e dos quais me despedi, pelas pessoas com as quais convivi e que mostraram o que eu quero e o que eu não quero ser, pelos meus erros e acertos e por aprender a ouvir a minha intuição, que é a minha bússola interior, que me guia e me permite viver experiências que talvez eu não entenda agora, mas que em outro momento serei capaz de compreender.

Vou fazer 32 anos esse ano, mas sinto como se estivesse fazendo 7. Sete anos em que sinto que tenho mais consciência das minhas escolhas que encontrei razões pelas quais viver, razões que me motivam todos os dias a me aprimorar a ajudar a construir uma realidade diferente daquela que vivo hoje, pensando não só em mim mas em todos. O mundo não tem que ser bom só pra mim. Eu não posso me deitar tranquila enquanto outras pessoas não tem acesso ao que lhes é direito básico.

E assim eu sigo, esperando viver muitos outros anos e aberta para os aprendizados que a vida tem a me oferecer.

Como reduzir o uso do celular?

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Talvez esse não seja o melhor momento pra fazer esse post, mas já era: eu fiz até um podcast a respeito disso (vou deixar o player pra você ouvi-lo no final dessa publicação). Sei que a pandemia tem feito a gente usar muito mais o nosso celular  – uma pesquisa contou que aumentamos o uso do celular em 88,4% nesse período – e é compreensível. Mas não tô falando só da pandemia. A gente já vem usando o celular indiscriminadamente há muito mais tempo.

Ganhei meu primeiro aparelho em 2003, com 15 anos e ele só mandava sms e fazia ligações. Em 2007, com o lançamento do primeiro iPhone, a indústria dos celulares se transformou e hoje temos um aparelho que, em último caso faz ligação. Nosso telefone é nosso DJ, nossa agenda, nosso banco, nosso jornal, nossa TV e muitas vezes nosso trabalho. Não quero demonizar o celular não, pois reconheço o quanto as tecnologias facilitam as nossas vidas, mas quero propor uma conversa pra gente entender melhor por que passamos horas do nosso dia de olhos grudados nessas telas.

O primeiro ponto é que existe todo um trabalho de engenharia e design nos aplicativos pra fazer com que passemos a maior parte do nosso tempo neles. O livro “Celular, como dar um tempo”, da Catherine Price, explica de forma muito simples todas essas questões que fazem com que nós estejamos cada vez mais viciados. É importante também nos questionarmos sobre os apps (especialmente das redes sociais) serem gratuitos. É que o que é vendido ali é a nossa atenção e quem paga por isso são os anunciantes. Quanto mais tempo a gente passa conectado no nosso telefone, maior a chance de vermos anúncios e de comprarmos algum bem ou serviço oferecido nas redes.

E por que nós ficamos viciados? Por que esses designs e trabalhos de engenharia são feitos pra gerar o “feedback comportamental” que manipula a química do nosso cérebro através da produção de dopamina, nos levando a comportamentos viciantes.  Sabe quando uma publicação sua tem muitas curtidas e comentários e gera aquela sensação gostosa? Então, nosso cérebro armazena essa informação sempre que esse tipo de coisa acontece e, com o passar do tempo, nosso cérebro libera a dopamina só da gente se lembrar dessa sensação. Por isso ficamos sempre atualizando as notificações pra ver se conseguimos sentir cada vez mais essa sensação boa.

Uma questão que também faz com que nós não queiramos largar o telefone é o FOMO (Fear of missing out), que é o medo de perder algo interessante ou importante enquanto estamos longes dos nossos celulares. Ninguém quer ser o último a saber das coisas, ainda mais hoje em dia que temos informação em tempo real. E o contrário do FOMO é o JOMO (Joy of missing out) que nos convida a reencontrar o prazer e alegria longe dos nossos celulares.

Com o FOMO e o nosso medo de perder algo, não damos conta do tempo que passamos conectados nas telinhas dos nosso celulares. Hoje em dia os aparelhos tem essa função de monitoramento de tempo e, sabendo do tempo que ficamos no aparelho existem duas coisas pra gente pensar: Vamos supor que o nosso aparelho mostre que passamos 3 horas por dia usando o telefone. Imagine se a gente usasse esse tempo pra poder aprender algo, ou pra passar tempo fazendo algo que nos trouxesse algum tipo de retorno. Se eu usasse 1 hora que fosse do meu dia, todos os dias, pra me dedicar a estudar um assunto ou aprender um instrumento, eu tenho certeza de que aprenderia razoavelmente rápido.

O segundo ponto é que a gente não passa 3 horas “corridas”no celular. Pegamos o aparelho várias vezes ao longo do dia e a quantidade do monitoramento nos mostra a somatória do tempo. E aqui tem um ponto bem interessante: os nossos celulares estão afetando a forma como aprendemos. Supondo que você esteja escrevendo um texto (como eu tô fazendo agora) e seu celular mostra notificações no whatsapp. Você vai querer ver. Então você para o que está fazendo pra ver a notificação (e muitas vezes não é nada importante). A linha de raciocínio é quebrada e pra você retomar esse fluxo de concentração leva um pouco de tempo.

O que tem me ajudado aqui a melhorar isso foi desativar todas as notificações. Assim não me sinto curiosa pra ver que mensagem eu recebi e consigo melhorar minha concentração. Tirar um dia da semana pra não acessar redes sociais nem internet também tem sido uma experiência muito bacana que tem me feito perceber a passagem do tempo de uma forma diferente. Sinto que consigo ficar mais presente e concentrada no que estou fazendo e me sinto plena e feliz naquele momento.

Se você tem a sensação de que passa tempo demais no telefone e que quando se dá conta seu dia passou, vale a pena repensar esse uso. Se, monitorando o tempo você vê que passa tempo demais em uma rede social, talvez valha a pena pensar no porquê de estar agindo assim. Não estou dizendo que você não deve se entreter nas redes sociais, ver memes e não fazer coisas “improdutivas” por lá. Talvez seja necessário apenas um ajuste pra não sacrificar a vida real (que no final das contas é que importa) passando tempo demais conectado ao celular.

Ouça meu podcast sobre esse assunto:

Slow Blogging

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Não sei você, mas sou de uma geração que só teve contato com a internet na adolescência. Minha infância foi longe das telas (computador naquela época era artigo de luxo) e a percepção do tempo e das coisas eram muito diferentes. Mas também reconheço os benefícios que as tecnologias e o acesso à internet trouxeram para as nossas vidas.

Quando minha mãe comprou um computador lá pra casa a gente não tinha acesso à internet ainda. Usávamos ele só pra fazer trabalhos e jogar joguinhos que já vinham no computador ou que alguém nos emprestava. Depois a internet chegou aqui no interior (era discada) e por isso tínhamos um limite de tempo de uso (só depois da meia noite e no final de semana pra gastar um pulso só! Rs…) Lembro que além do ICQ e MSN (que eu acessava na lan house), criei meu flogão. Ali postava as fotos de qualidade bem baixa tiradas na câmera do Léo, meu amigo. Migrei para o fotolog e também criei meu blog que era basicamente um diário virtual. A gente se abria mesmo, expunha os sentimentos, era tudo bem simples.

Em seguida teve o boom dos blogs de moda que fizeram todo mundo querer ter o seu também (eu inclusive tive um) e depois, com a síndrome do pânico e todas as mudanças pelas quais eu estava passando, criei esse blog, que a princípio era apenas pra registrar minha experiência de ficar um ano sem comprar nada, mas posteriormente acabou se tornando um local pra compartilhar meus anseios, reflexões e aprendizados na busca por autoconhecimento.

Quando me tornei vegana em 2016 fui para o instagram pra compartilhar meus pratinhos e a experiência de ser vegana em uma cidade pequena. A conta foi crescendo e aquele se tornou meu principal foco de produção de conteúdo. Abandonei esse blog, mas depois decidi retomar as publicações aqui também. Entendi que o que eu acredito como vida simples conversa muito com outros movimentos como o veganismo e por isso resolvi voltar pra cá. E por último, veio o podcast que tem sido uma experiência muito prazerosa de produzir.

Então, tô aqui criando conteúdo na internet há 7 anos. Já fui a pessoa super produtiva, que postava todos os dias, até sentir o cansaço me consumir e começar a pensar na quantidade de conteúdo produzido e no quanto é exaustivo produzir com responsabilidade. Entendo que a internet demanda conteúdo rápido e novo todos os dias e geralmente os perfis que produzem dessa forma tem toda uma estrutura pra poder dar conta. Mas quem produz de forma independente se sente sobrecarregado e realmente não consegue acompanhar tudo isso.

Pra vocês terem uma ideia: meu trabalho pra produzir um episódio do podcast leva pelo menos 6 horas entre: pensar no tema, escrever roteiro, gravar, divulgar, criar arte e distribuir nas plataformas. E esse é só um dos conteúdos que eu crio fora o trabalho que tenho e que paga as minhas contas. Tudo isso tem colaborado pra me fazer questionar essa necessidade de novidade o tempo todo. Já existe muita coisa legal disponível que podemos usufruir, aprender, rever e consumir. A quantidade de informação que consumimos tem nos deixado “infoxicados“, exaustos mentalmente. E isso vale pra todo mundo, pois todos são produtores de conteúdo em maior ou menor grau, já que se temos um perfil em uma rede e o alimentamos, estamos produzindo conteúdo.

O que eu mais tenho ouvido das minhas amigas que também produzem conteúdo é que todas estão cansadas de tentar postar todos os dias pra serem vistas pelos seus seguidores. Produzir de forma responsável requer que estudemos, compreendamos o conteúdo, façamos ele conversar com a nossa história e o transformemos em algo que tenha uma pitada da gente pra depois poder compartilhar com outras pessoas. E isso não dá pra ser feito da noite para o dia.

Só que quando nós reduzimos a velocidade dessa produção, perdemos visibilidade, já que as redes são projetadas pra que passemos a maior parte do nosso tempo conectados à elas, pois o que é vendido ali é a nossa atenção (são os anunciantes quem bancam o nosso uso gratuito das redes) e que pode ser convertida na compra de um bem ou serviço. Por isso é interessante que passemos mais e mais tempo conectados. No final das contas a gente precisa escolher o que fazer e tentar encontrar um ponto de equilíbrio que não sacrifique nossa paz e nossa saúde mental. Devemos encontrar alternativas que nos possibilitem continuar a realizar o nosso trabalho on-line, mas não nos sentirmos culpadas por não dar conta de tudo, nem de produzir em alta velocidade.

E aí que entra o slow blogging que nada mais é do que “postar devagar”. É reduzir a velocidade das postagens e produzir com mais calma, respeitando nosso ritmo (mesmo que isso implique não seguir as regras das redes de estar presente todos os dias). O slow blogging conversa muito com o slow living e a vida simples, onde priorizamos as coisas que são importantes pra nós. Por aqui reduzir o volume de produção tem dado certo. No começo eu me sentia meio culpada, mas acho que cada um sabe onde aperta o sapato e de nada vale um feed perfeito e a saúde mental péssima, não é mesmo?

Tenho tirado os domingos pra não usar internet e tem sido maravilhoso. Aos domingos eu sou só a Bruna. Apenas existo e vivo a vida real. Nas segundas eu retorno e a cada semana, venho tentando entender o que eu quero mudar nesse trabalho com as redes, em como posso produzir no meu tempo, do meu jeito, sem pressão. E tô feliz em seguir esse caminho.

No episódio dessa semana do podcast falei um pouco sobre isso e sobre a produção de conteúdo.

Encontrar a felicidade nas coisas simples

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Acho que a felicidade é aquela sensação de “quentinho no coração” que acontece em situações muitas vezes inusitadas. Eu, por exemplo, já senti a felicidade lavando a louça! Mas calma aí que eu vou explicar.

Era domingo, meu dia de folga (longe de redes sociais e qualquer tecnologia que exija minha atenção, em que uso o celular só em caso de precisar mandar uma mensagem importante ou fazer uma ligação). Final do dia e lá vou eu preparar algo pra comer. Vi três berinjelas murchando e me lembrei que tinha comprado gergelim pra fazer tahine, mas o corre da semana não permitiu. Vou preparar o tahine (que gosto de comer com pão) e pra aproveitar as berinjelas e “limpar” o processador, fazer babaganoush. Sempre que faço algo que gruda demais no processador penso numa receita que contenha esse mesmo ingrediente pra evitar desperdiçar e usar a receita pra limpar o aparelho.

Preparei tudo e olhei pro rádio na prateleira das panelas logo em cima da pia. Lembrei que adoro a Rádio Educativa que só toca música que eu gosto. Muitas vezes eu chego a pensar que a escolha das músicas é tão boa (no caso, tem tanto a ver com meu gosto) que poderia perfeitamente ser uma das playlists que costumo fazer no Spotify.

Fim de tarde é a hora em que também trago 2 dos meus 5 cães pra dentro da casa pra me fazer companhia enquanto faço um lanche. Bob e Pipoca estavam tranquilinhos, deitados no chão da cozinha, alguma música dos anos 80 estava tocando e eu lavando a louça. Ali, naquele momento tão normal e nada extraordinário eu me senti feliz. Feliz com a união de tudo o que eu gosto: estar ali preparando uma comida na companhia dos meus bichinhos e ouvindo música boa.

E eu quis “agarrar” aquele momento igual quando a gente quer porque quer agarrar uma borboleta pra contemplar sua beleza de perto mas ela, assustada, foge. E aquele momentinho se foi. Igual borboleta. Quando eu pensei em como queria fazê-lo durar, ele escorreu pelas minhas mãos junto com a água da louça que eu lavava. Apesar da brevidade eu ainda senti aquele quentinho no coração por um tempo e lembrei que Guimarães Rosa escreveu que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

Mas e se a gente ficasse mais atenta e menos descuidada? Talvez assim a gente conseguisse ser feliz nas coisinhas simples: em ter a companhia dos nossos bichinhos, em ler um livro no final da tarde, em curtir aquela música que a gente adora, em comer uma refeição saborosa preparada com carinho… E aí, com o coração quentinho e alimentado dessa bem querença, talvez fique mais fácil seguir em frente e a gente fique preparada pras coisas não tão felizes que a vida coloca no nosso caminho. Por que a felicidade é assim mesmo: bate na porta, toma um café, faz um afago e se vai. E a gente só precisa estar atenta pra partilhar esse momento com ela.


 

Esse é o tema da semana do podcast. Clique para ouvir: