Pausas, análises, processos

Daqui a pouco faz um mês que eu não escrevo aqui. Acho que todos nós meio que perdemos a dimensão do tempo e a sensação é que agosto, o “mês eterno” passou num piscar de olhos. Que ano! E por que eu não tô escrevendo? Por que a escrita tá travada. Eu sento aqui, abro os muitos rascunhos que estão salvos, mas nenhum deles parece fazer sentido. Sabe quando você quer muito fazer uma coisa mas parece que algo te impede? É essa a minha sensação.

Tenho pensado muito sobre tudo isso: sobre as pausas, análises e processos pelos quais minha vida tem passado e entendido como eu funciono, compreendido melhor meus momentos, meu ritmo, como a vida acontece pra mim e tirando o peso da comparação com a vida de outras pessoas. Na internet é muito fácil a gente se comparar. E isso acontece por que nas redes a gente só vê o resultado, não o processo. A gente vê um pedacinho do que a pessoa é, a pontinha do iceberg de toda uma complexidade que é ser humano e achamos que “pra fulano tudo é fácil” quando na verdade criamos nossos avatares nas redes e fazemos uma curadoria do que compartilhamos.

No livro “Falso Espelho”, Jia Tolentino traz um conceito de teoria identitária muito interessante, de um sociólogo chamado Erving Goffman. Essa teoria fala diz que estamos representando o tempo todo em nossas interações sociais, como forma de criar uma impressão no público. Não que façamos isso de “má fé”, mas é natural que ajamos de formas diferentes, tipo quando a gente tá passando por um problema pessoal, mas no trabalho performa como se tudo estivesse bem (confesso que sempre tive muita dificuldade nisso). Goffman fala também quem em casa podemos ter a sensação de de não estarmos representando, de senti que estamos nos bastidores e isso faz muito sentido, ne? E olha só se não tem a ver com nosso comportamento nas redes sociais! Quem nunca olhou pra uma pessoa nas redes e pensou “essa pessoa ao vivo não é nada disso”? Esse livro tem me feito pensar muito e agora tô até lembrando de um vídeo que eu provavelmente já compartilhei aqui, mas acho que ilustra isso da performance nas redes.

Se por um lado temos acesso a muita informação, à possibilidade de conhecermos novas pessoas, culturas, de mostrar nosso trabalho, de dar voz a cada mais pessoas e causas, de ampliar nossa percepção do mundo, também estamos exaustas. O excesso de informação suga a nossa energia, faz com que tenhamos conhecimento de coisas sobre as quais não temos controle e não podemos mudar e de perceber toda a nossa impotência. Amplificamos nossas vozes através das redes sociais ao mesmo tempo em que criamos a ilusão da ação. Achamos que só o trabalho digital é importante e é claro que ele tem força, mas esquecemos que um discurso sem ações políticas e práticas, não provoca as mudanças significativas que queremos e precisamos no mundo.

E aí que entra a importância da pausa e da análise do que a gente tem feito. Essa é uma ação que precisa ser realizada com uma certa frequência para que possamos fazer os ajustes em nós e na direção na qual desejamos seguir. Só que essas análises precisam ser feitas sem pressa. Não é do dia pra noite. São processos diversos. Alguns levam mais tempo, outros menos. E se não respeitamos isso, criamos nossas personagens e vivemos uma vida que não é nossa, que é sobre o outro: suas opiniões e expectativas do que devemos ser.

Por aqui sigo num momento de revisão. Estar prestes a completar 32 anos tem me feito pensar onde cheguei e onde quero chegar, se faz sentido performar quem sou hoje ou se existem máscaras que precisam não apenas ser despidas, mas jogadas fora porque hoje não condizem com quem sou.

Ps. esse é o assunto também do Episódio 23 do Podcast. Para ouvir, clique aqui:

7 anos

Eu tenho uma “questão com número 7”. Já li que ele está associado à harmonia: 7 chakras, as 7 cores do arco-íris, 7 notas musicais… E agora, em 2020, completo 7 anos do início da minha jornada de autoconhecimento. Pelo menos a desse plano (por que acredito que não vivemos apenas essa vida e pronto, acabou, mas isso é outro assunto).

Hoje apareceu uma lembrança na minha rede social sobre a finalização do meu ano sem compra. Eu tinha muita coisa sobre ele no antigo blog que acabou se perdendo. Eram registros mensais de como estava sendo essa experiência, mas quero voltar aqui em outro momento pra contar como foi e os meus aprendizados a respeito disso.

O que queria compartilhar hoje é que não foi uma jornada fácil. Ao longo desses anos todos passei por momentos muito, muito difíceis em que eu só queria desistir. Esse despertar de que tanto ouvimos falar é um processo doloroso. Doloroso porque as nossas certezas se vão. Doloroso porque percebemos que nossos alicerces foram construídos sob a areia e não em um terreno sólido e firme e aí nos resta demolir ideias que estiveram conosco por tantos anos para reconstruir outras que estamos começando a conhecer.

E como é um caminho novo é fácil a gente se perder. Às vezes andamos por trilhas sem sinalização, erramos e precisamos voltar e começar de novo. Outras vezes seguimos por um caminho já aberto, percorrido por outras pessoas, com uma paisagem bonita e lugar pra descansar. Andamos ora sozinhos, ora acompanhados…

Falando de mim, da minha história, eu não mudaria nada. Se tudo o que eu passei me trouxe até aqui, eu agradeço. Agradeço pelas tempestades que sobrevivi, pelos amigos que fiz e dos quais me despedi, pelas pessoas com as quais convivi e que mostraram o que eu quero e o que eu não quero ser, pelos meus erros e acertos e por aprender a ouvir a minha intuição, que é a minha bússola interior, que me guia e me permite viver experiências que talvez eu não entenda agora, mas que em outro momento serei capaz de compreender.

Vou fazer 32 anos esse ano, mas sinto como se estivesse fazendo 7. Sete anos em que sinto que tenho mais consciência das minhas escolhas que encontrei razões pelas quais viver, razões que me motivam todos os dias a me aprimorar a ajudar a construir uma realidade diferente daquela que vivo hoje, pensando não só em mim mas em todos. O mundo não tem que ser bom só pra mim. Eu não posso me deitar tranquila enquanto outras pessoas não tem acesso ao que lhes é direito básico.

E assim eu sigo, esperando viver muitos outros anos e aberta para os aprendizados que a vida tem a me oferecer.

Como reduzir o uso do celular?

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Talvez esse não seja o melhor momento pra fazer esse post, mas já era: eu fiz até um podcast a respeito disso (vou deixar o player pra você ouvi-lo no final dessa publicação). Sei que a pandemia tem feito a gente usar muito mais o nosso celular  – uma pesquisa contou que aumentamos o uso do celular em 88,4% nesse período – e é compreensível. Mas não tô falando só da pandemia. A gente já vem usando o celular indiscriminadamente há muito mais tempo.

Ganhei meu primeiro aparelho em 2003, com 15 anos e ele só mandava sms e fazia ligações. Em 2007, com o lançamento do primeiro iPhone, a indústria dos celulares se transformou e hoje temos um aparelho que, em último caso faz ligação. Nosso telefone é nosso DJ, nossa agenda, nosso banco, nosso jornal, nossa TV e muitas vezes nosso trabalho. Não quero demonizar o celular não, pois reconheço o quanto as tecnologias facilitam as nossas vidas, mas quero propor uma conversa pra gente entender melhor por que passamos horas do nosso dia de olhos grudados nessas telas.

O primeiro ponto é que existe todo um trabalho de engenharia e design nos aplicativos pra fazer com que passemos a maior parte do nosso tempo neles. O livro “Celular, como dar um tempo”, da Catherine Price, explica de forma muito simples todas essas questões que fazem com que nós estejamos cada vez mais viciados. É importante também nos questionarmos sobre os apps (especialmente das redes sociais) serem gratuitos. É que o que é vendido ali é a nossa atenção e quem paga por isso são os anunciantes. Quanto mais tempo a gente passa conectado no nosso telefone, maior a chance de vermos anúncios e de comprarmos algum bem ou serviço oferecido nas redes.

E por que nós ficamos viciados? Por que esses designs e trabalhos de engenharia são feitos pra gerar o “feedback comportamental” que manipula a química do nosso cérebro através da produção de dopamina, nos levando a comportamentos viciantes.  Sabe quando uma publicação sua tem muitas curtidas e comentários e gera aquela sensação gostosa? Então, nosso cérebro armazena essa informação sempre que esse tipo de coisa acontece e, com o passar do tempo, nosso cérebro libera a dopamina só da gente se lembrar dessa sensação. Por isso ficamos sempre atualizando as notificações pra ver se conseguimos sentir cada vez mais essa sensação boa.

Uma questão que também faz com que nós não queiramos largar o telefone é o FOMO (Fear of missing out), que é o medo de perder algo interessante ou importante enquanto estamos longes dos nossos celulares. Ninguém quer ser o último a saber das coisas, ainda mais hoje em dia que temos informação em tempo real. E o contrário do FOMO é o JOMO (Joy of missing out) que nos convida a reencontrar o prazer e alegria longe dos nossos celulares.

Com o FOMO e o nosso medo de perder algo, não damos conta do tempo que passamos conectados nas telinhas dos nosso celulares. Hoje em dia os aparelhos tem essa função de monitoramento de tempo e, sabendo do tempo que ficamos no aparelho existem duas coisas pra gente pensar: Vamos supor que o nosso aparelho mostre que passamos 3 horas por dia usando o telefone. Imagine se a gente usasse esse tempo pra poder aprender algo, ou pra passar tempo fazendo algo que nos trouxesse algum tipo de retorno. Se eu usasse 1 hora que fosse do meu dia, todos os dias, pra me dedicar a estudar um assunto ou aprender um instrumento, eu tenho certeza de que aprenderia razoavelmente rápido.

O segundo ponto é que a gente não passa 3 horas “corridas”no celular. Pegamos o aparelho várias vezes ao longo do dia e a quantidade do monitoramento nos mostra a somatória do tempo. E aqui tem um ponto bem interessante: os nossos celulares estão afetando a forma como aprendemos. Supondo que você esteja escrevendo um texto (como eu tô fazendo agora) e seu celular mostra notificações no whatsapp. Você vai querer ver. Então você para o que está fazendo pra ver a notificação (e muitas vezes não é nada importante). A linha de raciocínio é quebrada e pra você retomar esse fluxo de concentração leva um pouco de tempo.

O que tem me ajudado aqui a melhorar isso foi desativar todas as notificações. Assim não me sinto curiosa pra ver que mensagem eu recebi e consigo melhorar minha concentração. Tirar um dia da semana pra não acessar redes sociais nem internet também tem sido uma experiência muito bacana que tem me feito perceber a passagem do tempo de uma forma diferente. Sinto que consigo ficar mais presente e concentrada no que estou fazendo e me sinto plena e feliz naquele momento.

Se você tem a sensação de que passa tempo demais no telefone e que quando se dá conta seu dia passou, vale a pena repensar esse uso. Se, monitorando o tempo você vê que passa tempo demais em uma rede social, talvez valha a pena pensar no porquê de estar agindo assim. Não estou dizendo que você não deve se entreter nas redes sociais, ver memes e não fazer coisas “improdutivas” por lá. Talvez seja necessário apenas um ajuste pra não sacrificar a vida real (que no final das contas é que importa) passando tempo demais conectado ao celular.

Ouça meu podcast sobre esse assunto:

Slow Blogging

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Não sei você, mas sou de uma geração que só teve contato com a internet na adolescência. Minha infância foi longe das telas (computador naquela época era artigo de luxo) e a percepção do tempo e das coisas eram muito diferentes. Mas também reconheço os benefícios que as tecnologias e o acesso à internet trouxeram para as nossas vidas.

Quando minha mãe comprou um computador lá pra casa a gente não tinha acesso à internet ainda. Usávamos ele só pra fazer trabalhos e jogar joguinhos que já vinham no computador ou que alguém nos emprestava. Depois a internet chegou aqui no interior (era discada) e por isso tínhamos um limite de tempo de uso (só depois da meia noite e no final de semana pra gastar um pulso só! Rs…) Lembro que além do ICQ e MSN (que eu acessava na lan house), criei meu flogão. Ali postava as fotos de qualidade bem baixa tiradas na câmera do Léo, meu amigo. Migrei para o fotolog e também criei meu blog que era basicamente um diário virtual. A gente se abria mesmo, expunha os sentimentos, era tudo bem simples.

Em seguida teve o boom dos blogs de moda que fizeram todo mundo querer ter o seu também (eu inclusive tive um) e depois, com a síndrome do pânico e todas as mudanças pelas quais eu estava passando, criei esse blog, que a princípio era apenas pra registrar minha experiência de ficar um ano sem comprar nada, mas posteriormente acabou se tornando um local pra compartilhar meus anseios, reflexões e aprendizados na busca por autoconhecimento.

Quando me tornei vegana em 2016 fui para o instagram pra compartilhar meus pratinhos e a experiência de ser vegana em uma cidade pequena. A conta foi crescendo e aquele se tornou meu principal foco de produção de conteúdo. Abandonei esse blog, mas depois decidi retomar as publicações aqui também. Entendi que o que eu acredito como vida simples conversa muito com outros movimentos como o veganismo e por isso resolvi voltar pra cá. E por último, veio o podcast que tem sido uma experiência muito prazerosa de produzir.

Então, tô aqui criando conteúdo na internet há 7 anos. Já fui a pessoa super produtiva, que postava todos os dias, até sentir o cansaço me consumir e começar a pensar na quantidade de conteúdo produzido e no quanto é exaustivo produzir com responsabilidade. Entendo que a internet demanda conteúdo rápido e novo todos os dias e geralmente os perfis que produzem dessa forma tem toda uma estrutura pra poder dar conta. Mas quem produz de forma independente se sente sobrecarregado e realmente não consegue acompanhar tudo isso.

Pra vocês terem uma ideia: meu trabalho pra produzir um episódio do podcast leva pelo menos 6 horas entre: pensar no tema, escrever roteiro, gravar, divulgar, criar arte e distribuir nas plataformas. E esse é só um dos conteúdos que eu crio fora o trabalho que tenho e que paga as minhas contas. Tudo isso tem colaborado pra me fazer questionar essa necessidade de novidade o tempo todo. Já existe muita coisa legal disponível que podemos usufruir, aprender, rever e consumir. A quantidade de informação que consumimos tem nos deixado “infoxicados“, exaustos mentalmente. E isso vale pra todo mundo, pois todos são produtores de conteúdo em maior ou menor grau, já que se temos um perfil em uma rede e o alimentamos, estamos produzindo conteúdo.

O que eu mais tenho ouvido das minhas amigas que também produzem conteúdo é que todas estão cansadas de tentar postar todos os dias pra serem vistas pelos seus seguidores. Produzir de forma responsável requer que estudemos, compreendamos o conteúdo, façamos ele conversar com a nossa história e o transformemos em algo que tenha uma pitada da gente pra depois poder compartilhar com outras pessoas. E isso não dá pra ser feito da noite para o dia.

Só que quando nós reduzimos a velocidade dessa produção, perdemos visibilidade, já que as redes são projetadas pra que passemos a maior parte do nosso tempo conectados à elas, pois o que é vendido ali é a nossa atenção (são os anunciantes quem bancam o nosso uso gratuito das redes) e que pode ser convertida na compra de um bem ou serviço. Por isso é interessante que passemos mais e mais tempo conectados. No final das contas a gente precisa escolher o que fazer e tentar encontrar um ponto de equilíbrio que não sacrifique nossa paz e nossa saúde mental. Devemos encontrar alternativas que nos possibilitem continuar a realizar o nosso trabalho on-line, mas não nos sentirmos culpadas por não dar conta de tudo, nem de produzir em alta velocidade.

E aí que entra o slow blogging que nada mais é do que “postar devagar”. É reduzir a velocidade das postagens e produzir com mais calma, respeitando nosso ritmo (mesmo que isso implique não seguir as regras das redes de estar presente todos os dias). O slow blogging conversa muito com o slow living e a vida simples, onde priorizamos as coisas que são importantes pra nós. Por aqui reduzir o volume de produção tem dado certo. No começo eu me sentia meio culpada, mas acho que cada um sabe onde aperta o sapato e de nada vale um feed perfeito e a saúde mental péssima, não é mesmo?

Tenho tirado os domingos pra não usar internet e tem sido maravilhoso. Aos domingos eu sou só a Bruna. Apenas existo e vivo a vida real. Nas segundas eu retorno e a cada semana, venho tentando entender o que eu quero mudar nesse trabalho com as redes, em como posso produzir no meu tempo, do meu jeito, sem pressão. E tô feliz em seguir esse caminho.

No episódio dessa semana do podcast falei um pouco sobre isso e sobre a produção de conteúdo.

Encontrar a felicidade nas coisas simples

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Acho que a felicidade é aquela sensação de “quentinho no coração” que acontece em situações muitas vezes inusitadas. Eu, por exemplo, já senti a felicidade lavando a louça! Mas calma aí que eu vou explicar.

Era domingo, meu dia de folga (longe de redes sociais e qualquer tecnologia que exija minha atenção, em que uso o celular só em caso de precisar mandar uma mensagem importante ou fazer uma ligação). Final do dia e lá vou eu preparar algo pra comer. Vi três berinjelas murchando e me lembrei que tinha comprado gergelim pra fazer tahine, mas o corre da semana não permitiu. Vou preparar o tahine (que gosto de comer com pão) e pra aproveitar as berinjelas e “limpar” o processador, fazer babaganoush. Sempre que faço algo que gruda demais no processador penso numa receita que contenha esse mesmo ingrediente pra evitar desperdiçar e usar a receita pra limpar o aparelho.

Preparei tudo e olhei pro rádio na prateleira das panelas logo em cima da pia. Lembrei que adoro a Rádio Educativa que só toca música que eu gosto. Muitas vezes eu chego a pensar que a escolha das músicas é tão boa (no caso, tem tanto a ver com meu gosto) que poderia perfeitamente ser uma das playlists que costumo fazer no Spotify.

Fim de tarde é a hora em que também trago 2 dos meus 5 cães pra dentro da casa pra me fazer companhia enquanto faço um lanche. Bob e Pipoca estavam tranquilinhos, deitados no chão da cozinha, alguma música dos anos 80 estava tocando e eu lavando a louça. Ali, naquele momento tão normal e nada extraordinário eu me senti feliz. Feliz com a união de tudo o que eu gosto: estar ali preparando uma comida na companhia dos meus bichinhos e ouvindo música boa.

E eu quis “agarrar” aquele momento igual quando a gente quer porque quer agarrar uma borboleta pra contemplar sua beleza de perto mas ela, assustada, foge. E aquele momentinho se foi. Igual borboleta. Quando eu pensei em como queria fazê-lo durar, ele escorreu pelas minhas mãos junto com a água da louça que eu lavava. Apesar da brevidade eu ainda senti aquele quentinho no coração por um tempo e lembrei que Guimarães Rosa escreveu que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”.

Mas e se a gente ficasse mais atenta e menos descuidada? Talvez assim a gente conseguisse ser feliz nas coisinhas simples: em ter a companhia dos nossos bichinhos, em ler um livro no final da tarde, em curtir aquela música que a gente adora, em comer uma refeição saborosa preparada com carinho… E aí, com o coração quentinho e alimentado dessa bem querença, talvez fique mais fácil seguir em frente e a gente fique preparada pras coisas não tão felizes que a vida coloca no nosso caminho. Por que a felicidade é assim mesmo: bate na porta, toma um café, faz um afago e se vai. E a gente só precisa estar atenta pra partilhar esse momento com ela.


 

Esse é o tema da semana do podcast. Clique para ouvir:

 

Você não vai agradar todo mundo

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Das poucas certezas que temos na vida, sem sombra de dúvidas essa é uma delas: não vamos agradar todo mundo.

Infelizmente muitas de nós passamos boa parte das nossas vidas tendo como meta a aprovação das pessoas, deixando de fazer o que gostaríamos e até nos indispondo com nós mesmas para sermos aceitas em um determinado grupo ou pelas pessoas que amamos.

Mas a gente se fere quando faz isso. Ferimos a nossa essência, nossa individualidade, que é aquilo que temos de valor e que nos permite oferecer uma contribuição única para o mundo. Do nosso jeito. Com a nossa cara.

É claro que ninguém quer ser rejeitado. Se sentir pertencente e bem quisto faz parte das nossas necessidades básicas, mas até que ponto vale a pena abrir mão de quem somos pelos outros?

Confesso que já passei um bom tempo tentando me encaixar em moldes até entender a importância de me libertar disso, de fazer o que eu queria por mim, porque me trazia realização. Quando deixei de dar tanta importância ao que os outros pensavam de mim, consegui direcionar essa energia para colocar em prática o que eu queria, pensando em mim e na minha realização pessoal.

Tem um episódio do podcast sobre esse assunto. Clique abaixo para ouvir:

 

O momento perfeito

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Será que existe um momento perfeito pra fazer algo, quando tudo está perfeitamente alinhado e sob controle?

Acho que em alguns momentos sim, os ventos sopram a nosso favor, mas na maior parte do tempo é muito mais sobre a gente ajustar as velas e assumir o leme das nossas próprias vidas, aprendendo a lidar com o que temos e com as circunstâncias que vão se apresentando ao longo do caminho.

Eu idealizei muitas coisas nesses 31 anos de vida e passei muito mais tempo no mundo da imaginação do que colocando, de fato, minhas ideias em prática. E sinto que isso tinha a ver com diversas questões: medo de não ser boa o suficiente, medo de não dar conta do recado, medo da reprovação dos outros, de não dar certo… E nisso muita ideia legal morreu ali na cabeça mesmo.

Hoje, um pouco mais madura, percebo que a realização pessoal em fazer algo, alinhada, claro, com planejamento, é muito mais importante do que receber aplausos e reconhecimento das pessoas. Claro que é ótimo quando um projeto nosso ganha visibilidade, quando ele pode ser útil pras pessoas e ajudá-las de alguma forma… Mas nem sempre isso vai acontecer. E tudo bem.

Enquanto passarmos a vida esperando pelo momento ideal, muitas oportunidades passarão. Sei que as vezes o medo é grande, mas é melhor correr o risco e errar do que passar a vida cogitando como seria se tivéssemos feito algo. Nós nunca vamos ter 100% de certeza sobre nada, mas se o nosso desejo de fazer algo é genuíno, se está no nosso coração, valerá a pena, independente do resultado.

Falei mais disso no último episódio do podcast, disponível abaixo.

 

Às vezes é bom não insistir

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Adoro perceber os ensinamentos que a vida nos traz nas coisas mais simples: hoje resolvi fazer um bolo de cenoura, bolo esse que já fiz milhares de vezes e sempre deu tudo certo. Mas eis que hoje o bendito bolo não só não cresceu como ficou cru. Formou uma casca por fora, mas por dentro não assou.

Ontem estava toda feliz porque consegui fazer uma receita de pão de beijo (versão vegana do pão de queijo) tomando uma base de receita mas não seguindo as quantidades exatas, que ficou incrível no formato, textura e sabor. Aí hoje, nessa receita que segui como sempre, deu errado.

Mas olha se não é a vida mostrando que um dia as coisas vão dar muito certo e em outros não. E que faz parte. E eu na minha inocência, acreditando que dava pra salvar o bolo ainda fiz uma calda de chocolate e quando fui comer definitivamente não deu. Precisei descartar com dor no coração, porque né, é comida.

E aí fiquei aqui refletindo com meus botões sobre o aprendizado do dia: às vezes é bom não insistir. Em quantas coisas continuamos colocando nossa energia mesmo quando estamos vendo que não vão dar certo? Tudo bem abrir mão, abandonar, não insistir porque percebemos que não tem conserto. Aqui foi o bolo (um exemplo simplista, claro), mas vale pra tudo na vida: projetos, relações, trabalhos. Não é sinal de fracasso abrir mão de algo. Pelo contrário: é sinal de que você se conhece a ponto de saber o que não vale mais a pena e como direcionar sua energia e seus esforços pra algo que tenha significado.

E assim fechamos o domingo.

 

A luz

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Das muitas coisas que eu gosto, esse sol de outono, sem dúvidas, é uma delas. Não sei se é necessariamente esse tom alaranjado que me agrada muito esteticamente ou se é pelo fato de que essas novas colorações anunciam uma nova estação e que o outono é um momento que nos convida a ir sossegando e aquietando, esperando a entrada do inverno chegar. E que por mais que eu tenha aprendido a gostar do verão, é das temperaturas mais amenas que eu gosto mais.

Nunca fui muito ligada a essa coisa de estação, mas sinto que depois que passei a pedalar, caminhar e a estreitar meus laços com a natureza, hoje percebo mais facilmente suas transições através dos detalhes: da temperatura que baixa ou aumenta, do dia que fica mais curto ou mais longo, e observando a natureza sinto que consegui também me entender melhor.

Cada estação nos remete a determinados movimentos: o outono e o inverno, por exemplo, nos convidam ao recolhimento, nos fazem querer comer coisas mais quentes, ficar mais em casa e estar mais na nossa própria companhia ou reunidos em grupos menores de pessoas. São períodos que nos deixam mais introspectivos. Já a primavera e o verão nos convidam a recomeçar, a aproveitar a vida fora de casa, a fazer mais atividades, a sentir a água do mar e da cachoeira geladinhas e refrescantes. São períodos mais expansivos.

Já disse que detestava o verão, mas acho que é só porque eu não aproveitava muito bem o que ele tinha a me oferece: não ia nas cachoeiras e estava há tanto tempo sem ir à praia. E eu também não entendia que a primavera e o verão (e o que eles remetem) são necessários para completar os ciclos dos quais nossa vida é composta. É no outono que eu amo fotografar, que a luz fica douradinha, que o frio é gostoso mas não é tão incômodo. É a “minha estação” o que me faz entender que embora eu entenda a necessidade de expandir, sou uma pessoa mais introspectiva.

Sinto que esse ano antecipamos outono e seu significado: por aqui vou aquietando, deixando ir o que precisa (nem sempre com facilidade) e me preparando para o inverno que logo vai chegar. Mas eu sei que ele vai passar, e que a primavera virá nos mostrando que tudo renasce e que a gente sempre deve seguir em frente.

Sem sair de casa saio caçando a luz pelos cômodos e hoje dei a sorte de fazer esse clique, que uniu duas coisas que gosto muito: a luz do outono e um doguinho.

Um dia de cada vez

Desde que entrei em isolamento social ontem foi um dos dias mais estressantes pelos quais passei. Respirei fundo o dia todo, tretei, chorei… Acho que eu realmente tava precisando desabafar e tirar algumas coisas de dentro de mim. Tem quem pense que quem escolhe “uma vida mais simples” leva tudo com leveza e a gente até tenta, mas não tem santo que dê conta de lidar com certas coisas. Se ontem foi um dia em que só esperei um segundo passar depois do outro, hoje foi bem diferente.

Pinguei uma gotinha de óleo essencial de lavanda no meu travesseiro na hora de dormir e senti que o sono foi revigorante mesmo. Acordei às 05:30 descansada. Aliás o óleo de lavanda é muito bacana pra ansiedade. É barato e dura bastante. O meu tá aqui tem uns 2 anos e só acabou porque eu não sabia que era pra usar só uma gota e despejava o negócio nas coisas.

Tomei um café da manhã, sentei pra finalizar alguns trabalhos, almocei, vi umas notícias e deitei pra ver um filme. Choveu por aqui e o dia ficou nublado, então ao invés de dar uma lida em um material que quero estudar, resolvi ver um filme. Assisti “o estágiário” e gostei bastante. Não sou uma grande crítica e analista de filmes, mas gostei. Me emocionei. Quando deitei pra ver o filme,  gatinha que tá sendo nossa hóspede nesses dias (foi castrada e está em busca de um lar) veio deitar comigo. Aliás ela tem ficado grudada em mim desde a semana passada, que é quando resgatamos e castramos e eu que nunca fui a pessoa dos gatos tô encantada com a fofurice desse bichin.

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Esse serzinho dorme o dia todo…

Hoje tô vencendo a preguiça e indo me exercitar nem que seja um pouquinho. E também tô entendo que meu ritmo tá mudando porque meu período menstrual tá chegando e desde que entendi que nessa fase as coisas funcionam de maneira diferente pra mim, tá sendo mais fácil lidar com algumas questões. Seguimos por aqui, um dia de cada vez,  hoje respirando mais leve, afofando gatinhos e catioros. Amanhã eu espero pra ver como vai ser.