Pedir, receber, agradecer

“Lembre-se de quando você desejou o que você tem hoje”

Se você me acompanha há mais tempo, já deve ter lido (ou ouvido no podcast) sobre meu processo de mudança de vida que começou quando descobri que tinha síndrome do pânico, lá em 2013. Na época eu era só uma jovem comum, preocupada com as coisas da juventude, um pouco alheia ao que não me envolvessem diretamente. 

Quando as primeiras crises começaram eu achei que estivesse com um problema de saúde (algum problema cardíaco mais precisamente, porque um dos sintomas das crises é a taquicardia). Vivenciar tudo aquilo me fez começar a pensar que minha morte se aproximava e foi isso que me fez refletir sobre o que eu estava fazendo da minha vida.

Naquela época eu tinha começado uma pós graduação em marketing, trabalhava na parte de comunicação de uma rede de lojas e trabalhar com aquilo passou a não fazer muito sentido pra mim. Eu tinha feito a experiência de passar um ano sem fazer compras e estava bem impactada com a questão do consumo. Sei que na época fui meio radical, mas me sentia desconfortável trabalhando com comércio de itens que não eram de primeira necessidade, criando propagandas que estimulassem as pessoas a consumir. A empresa que eu trabalhava era familiar e muito centralizada, com uma enorme dificuldade de inserir novos pontos de vistas que não reproduzissem o padrão. Eu queria sair daquele trabalho e fazer outra coisa, só não sabia o que. Estava completamente perdida.

Mais ou menos nessa mesma época eu comecei a pedalar. Lembro de como chegava no trabalho por volta das 18, comia e saia pra andar de bike com meu amigo Elder. Um outro ponto que começou a me incomodar foi ter que ficar o dia todo fora. Meu trabalho era em outra cidade, então eu saia cedinho e voltava no final do dia. No horário de verão era mais tranquilo porque conseguia chegar e aproveitar o final do dia, mas no inverno, tinha dias que quando eu ia pegar o ônibus de volta e já estava tudo escuro.

Um pouco depois, por questões financeiras da empresa, muitas pessoas tiveram que reduzir a jornada de trabalho e eu fui uma delas. Trabalhava só meio período, recebia bem menos, mas me sentia muito bem. Lembro de ter dias em que ia pra cachoeira de manhã ou que andava de bike e fazia outras coisas antes de ir para o trabalho. Conseguia ter mais tempo pra mim sem perder a minha fonte de renda. Não tinha muitos gastos, então era tranquilo administrar os recursos.

Mas o lance com a empresa foi ficando mais complicado em relação ao dinheiro e decidi pedir as contas. Eu precisava do dinheiro, claro, mas tinha outras pessoas ali que tinham filhos e talvez precisassem dessa renda fixa mais do que eu. Eu era nova e pra mim era mais fácil conseguir arrumar outro trabalho. E foi assim que comecei a fazer alguns trabalhos como freelancer e cá estou. 

Contei toda essa história pra vocês porque ontem a tarde fui dar uma volta de bicicleta e fiquei pensando sobre como muitas das coisas que eu queria naquela época, de fato, aconteceram. Queria me conhecer melhor, ter mais tempo pra mim, trabalhar com algo que tivesse mais alinhado com minha forma de ver o mundo… e cá estou. A questão do trabalho que ainda tá um pouco emaranhada, mas pensei em tudo com muito carinho e agradeci a vida, ao universo, a Deus, por tudo o que me aconteceu e me permitiu vivenciar tudo o que tanto desejei.

Ao mesmo tempo lembrei que quando comecei a trabalhar nessa empresa em 2010, fiquei muito feliz, porque tinha acabado de sair da faculdade e teria a oportunidade de trabalhar em uma área que eu gostava muito, que é a área de comunicação. Lembro perfeitamente de ter tuitado no meu falecido @bdebruna que nunca tinha me sentido tão feliz como naquele momento.

E aí é interessante pensar sobre como desejamos coisas diferentes em diferentes momentos da vida. Foi ótimo ter a oportunidade de trabalhar naquele lugar, mas a vida foi me direcionado pra outros rumos. Hoje sinto que estou em um lugar que deixa feliz e sou grata por fazer no dia a dia coisas que acredito serem boas pra mim e pro mundo.

Sei que com o passar do tempo a gente vai mudando, se transformando, vivenciando algumas coisas que pensávamos que seriam boas pra nós, mas na realidade não são. Mas antes de dar os passos rumo à uma nova direção, agradeço pela oportunidade de viver tudo o que um dia eu sonhei pra mim.

Desacostumando o olhar

Sou nascida e criada na mesma cidade, ou seja, são 33 anos morando no mesmo lugar. Quando era bebê morei em um bairro diferente, mas aos 6 meses mudei para o lugar onde moro, numa casa que era só quarto, cozinha e banheiro e só me mudei de novo quando essa casa foi demolida pra que a casa que eu moro hoje fosse construída. Então posso dizer que moro há pelo menos 30 anos aqui, o que me faz ser muitíssimo familiarizada com meu entorno.

Os últimos 9 anos mudaram muito a minha relação com o local onde vivo. Claro que tenho vontade de viajar pra outros lugares, conhecer cidades e países, mas mudei a minha perspectiva no sentido de olhar com carinho para a minha cidade.

O fato de ter começado a pedalar, por exemplo, me permitiu conhecer lugares que por anos me foram desconhecidos: cachoeiras, estradinhas, trilhas. Depois vieram as caminhadas, e por mais que eu esteja andando pelo mesmo trajeto que costumo percorrer de bicicleta, é diferente. Caminhar, correr e pedalar no mesmo lugar, nos traz percepções diferentes do espaço.

Viver a pandemia em uma cidade pequena também tem sido uma experiência diferente do que viver em um grande centro. Aqui, em 2 minutos tenho acesso a uma área verde, com pouco movimento de pessoas. Dá pra sentar ali, ler um livro, levar os cães pra passear… Consigo até ficar sem máscara respirando ar puro.

Aqui consigo correr ao ar livre, tendo uma vista incrivelmente bonita, sem trânsito, tudo isso pertinho da cidade. Ou seja, não preciso gastar tempo ou dinheiro me locomovendo pra um lugar que me permita estabelecer essa conexão com a natureza.

Como vocês podem notar, eu usufruo muito desses espaços. Muita gente daqui não sai por aí como eu pra pedalar, correr ou fazer trilhas. E eu também não fui assim por muito tempo, tanto que só conheci muitos dos lugares que conheço hoje as 24 anos, quando comprei minha bicicleta e comecei a pedalar.

Em um tempo em que parecemos precisar de novos estímulos o tempo todo, é um desafio a gente “desnormalizar” nosso olhar e conseguir apreciar as coisas boas e bonitas que estão ao nosso redor. É um exercício diário nos treinar para ver detalhes que passam despercebidos porque nos acostumamos com que o vemos.

O que costumo fazer é percorrer o mesmo local por trajetos e horários diferentes, observar a posição do sol a cada estação, a mudança da vegetação em cada época do ano, pesquisar novas trilhas, conversar com pessoas que já estão acostumadas nessas andanças pra poder conhecer novos lugares.

Aí que quero compartilhar com vocês um vídeo que gravei para o meu canal no youtube na última semana, mostrando um pouquinho de uma caminhada pelas estradas de Congonhal. Já percorri esse trajeto muitas e muitas vezes ao longo dos anos e estou sempre me encantando com a paisagem. Gravar esse vídeo é uma forma de levar vocês pra um desses rolês comigo. Espero que gostem.

Até que minha voz chegasse aqui


Fui uma criança tímida e desde então venho trabalhando todos os dias pra superar a minha timidez. Lembro de vários episódios na infância que me fizeram querer entrar num buraco: uma vez eu estava andando na rua com a minha mãe, toda distraída nos meus pensamentos, segurando a roupa dela. Depois de um tempo, quando volto pra realidade, olho para o lado e estou segurando a roupa de um rapaz 😅. Hoje é engraçado, mas na época eu quase morri de vergonha e saí correndo. Outra vez teve algum evento na cidade, (acho que era dia de Corpus Christi, quando eles fazem aqueles tapetes decorados no chão) e eu fui correr pra fazer algo, escorreguei numa folha de bananeira que tava caída no chão e quase me estabaquei. Queria entrar num buraco porque tava cheio de gente por perto.

Fazer coisas sozinha, pra mim, era muito difícil. Era insegura e sentia que precisava ter alguém ali do meu lado pra poder me dar coragem. E por mais contraditório que possa parecer, na minha infância eu participei de muitos eventos públicos como desfiles na escola, grupo de teatro, grupo de dança… Mas sempre em atividades coletivas. Quando era pra eu fazer sozinha não ia nem a pau.

Sinto que sempre tive medo da opinião dos outros sobre mim. Sou nascida e criada em uma cidade pequena e aqui a galera faz muita fofoca (essa é uma das poucas desvantagens de morar no interior), então eu me preocupava com a minha “imagem e reputação”, mas o lance é que eu era diferente, não tinha jeito. Eu gostava de rock, eu cantava numa banda, eu questionava as coisas. Embora não fosse uma pessoa briguenta, com meu grupo de amigas, onde me sentia segura, sempre expressava minhas ideias e ideais, que eram meio diferentes e polêmicos, como disse uma amiga uma vez.

Comecei a escrever meio que por isso: como uma forma de me expressar em um lugar seguro. Na época da escola eu já gostava muito de escrever redações e poesias e com o acesso a internet, encontrei nos blogs meu lugar de conforto. Ali eu poderia escrever sobre qualquer coisa, colocar um pseudônimo e ninguém saberia quem era. Era muito gostoso. Depois comecei a fotografar e também encontrei nas imagens uma forma de expressar minha visão do mundo sem, necessariamente, ter que me mostrar.

E aí, com as redes sociais, sinto que veio uma cobrança da gente se mostrar mais, mostrar o que fazemos, nosso dia, abrir a nossa vida. Lembro que quando o instagram começou com os stories eu só postava os meus cães e os lugares onde ia, mas raramente aparecia e falava. Também tinha uma certa autocrítica em relação à minha imagem, então me sentia melhor não aparecendo. Mas aos poucos fui me soltando, começando a aparecer, a falar, a cantar… Veio o podcast, que é ótimo porque a gente pode falar sem as pessoas nos verem. E por último, pra coroar as minhas mudanças e transformações, veio o canal no youtube, onde finalmente dou as caras.

Como vocês podem ver, tem sido um processo longo o de me soltar, de quebrar as barreiras e me permitir dar voz à minha voz, ao que acredito e vivo e hoje, aos 33, estou me sentindo mais confortável e com menos medo de julgamento. Sempre lembro de uma reflexão que li em um texto do escritor Alex Castro que falava que não é que a gente não deva se importar com a opinião das pessoas, mas que devemos escolher as opiniões de quais pessoas levar em consideração. E apesar desse processo ter demorado bastante, fico feliz em trilhar esse caminho de pertencer, cada vez mais, a mim e de me expressar com o coração e com a minha verdade.

Inaugurando um novo ciclo

Lembro que em quando completei 30 anos, em 2018, esperava algo mágico acontecer, alguma mudança significativa que seria o meu passaporte pra vida adulta “real oficial”, mas não rolou nada.

Em 2019 escrevi sobre como imaginava chegar à vida adulta cheia de respostas e certezas, mas que isso não aconteceu. Pelo contrário: as dúvidas aumentaram, somadas a uma cobrança tremenda por “estar em algum lugar”, “fazer algo de relevante”, “conquistar coisas”…

Ontem foi meu aniversário de 33 anos e tenho a sensação de que inicio esse novo ano com planos e projetos mais realistas, menos cobranças e mais disposição a aprender e mudar. A palavra que escolho pra me acompanhar nesse novo ciclo é “fluidez”. Quero fluir com a vida e com isso me permitir mudar quantas vezes for necessário ao invés de me prender em algo porque aquilo fez parte de um plano meu em algum momento da vida.

Quero fazer menos esforço pra ficar onde não me cabe. Quero me sentir inteira, na alegria e na dor. Quero me permitir experimentar coisas novas, iniciar novos projetos e abandonar aqueles que hoje não se alinham mais com quem eu sou. Quero ir ajustando as velas do barco enquanto navego, observando e percebendo como o que acontece ressoa em mim.

Espero muito, mas com uma certa leveza, porque entendi que não preciso esperar algo vir a acontecer para ser feliz. Sigo com a ideia de que a felicidade está mais no caminho do que no destino, porque é aqui que a vida acontece, no dia a dia, com todas as dores e delícias de ser gente.

Quando é hora de pedir ajuda

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Eu não planejava passar tanto tempo sem escrever aqui, mas nem tudo acontece da maneira como a planeja, né? Coisas inesperadas chegam no nosso caminho e muitas vezes demandam que façamos pausas e analisemos a situação pelos mais variados ângulos, pra depois tomarmos fôlego pra continuar seguindo em frente.

Os meus últimos seis meses tiveram muitas reflexões passando por essa cabecinha, planos sendo revisados, mudanças e muitos aprendizados, em especial o de saber quando é hora de pedir ajuda. Crescemos com a ideia de sermos independentes e suficientes e de aprendermos a “dar conta das coisas” (e isso é importante, claro), só que nem sempre é assim que funciona na prática. Por mais que nosso RG mostre que o tempo passou e chegamos à vida adulta, às vezes é bem difícil segurar a onda sozinhos. E honestamente, nem sei porque insistimos nessa ideia de resolver os BO’s sem ajuda. E com todo esse conceito na nossa cabeça,  é preciso humildade pra reconhecer as nossas limitações e saber quando é hora de pedir o auxílio de alguém.

Só que a sensação de saber que não estamos sozinhos é muito boa e de fato, é muito mais fácil lidar com os problemas do nosso caminho quando temos pessoas do nosso lado nos dando suporte. A realidade é que nós precisamos das pessoas e elas também precisam de nós. Não temos que fazer tudo por conta pra provar que somos fortes. Pelo contrário: nossa força está justamente em reconhecer as nossas limitações e em saber a hora de ser ajudado.

Confesso que me sinto muito mais forte hoje, sabendo da minha pequenez e humanidade, das minhas dores e fraquezas. E falar delas é bom, porque me coloca nesse local de aprendizado constante, de quem não chegou ao “fim” da jornada. De uma pessoa que erra, cai, levanta e tenta seguir em frente, que também é uma pessoa que acerta e tem aprendido a celebrar as conquistas.

E que coisa boa é saber que muitas mãos se estenderam pra mim ao longo da vida e em diversos momentos. Quantas pessoas cruzaram meu caminho e me ensinaram e tantas outras eu também pude ensinar. Assim a gente segue, como aprendizes e professores uns dos outros.

Tem um episódio sobre isso no meu podcast. Clique para ouvir:

Como podemos contribuir para um mundo melhor?

Eu acredito demais que um mundo melhor será resultado de uma construção coletiva. Não tem um salvador, não tem um milagre que vai acontecer e pronto, todo mundo vivendo com justiça e dignidade. As nossas ações, aquilo a gente pratica, é o que realmente conta pra transformar esse mundo louco num lugar bacana pra todo mundo. Paulo Freire trouxe na proposta de práxis a ideia de fazer com nossas ações sejam capazes de transformar a realidade e de que nossa teoria e prática precisam estar conectadas e alinhadas. Acredito muito nisso.

E aí, pensando numa escala menor, como a gente pode contribuir pra que o mundo (e esse “mundo” pode ser o nosso entorno mesmo) se torne melhor? A gente sabe que existem muitas coisas pra serem melhoradas ou resolvidas e que algumas coisas estão além de nossas capacidades e cabem aos governantes (tem inclusive um episódio do podcast sobre como a gente não vai mudar o mundo sozinho), mas algumas melhorias podem muito bem partir da gente. E o que nós fazemos? Nós agimos ou nós terceirizamos essa responsabilidade? Afinal de contas, alguém tem que fazer alguma coisa, né?

Quando tive síndrome do pânico lá em 2013 (que foi o começo de uma mudança significativa na minha vida), eu achei que estivesse prestes a morrer. Os ataques de pânico me davam taquicardia, dificuldade pra respirar, dormência nos braços… Já fui até parar no hospital várias vezes achando que estivesse enfartando. E realmente pensei que fosse morrer aos 24 anos. Isso me abalou muito e me fez pensar na forma como eu vivia. O que eu estava fazendo da minha vida? Eu trabalhava, vivia minha vida fazendo minhas coisinhas… e aí? Era só isso? Eu não queria fazer a minha existência se resumir a isso. Foi então que comecei a mudar.

No passeio da Cãogonhal – grupo de proteção no qual sou voluntária

Começou com a ideia de ficar um ano sem comprar pra questionar minha forma de consumir. Junto disso, muitas leituras sobre autoconhecimento e espiritualidade e uma maior dedicação a me conhecer, a saber o que eu realmente queria e quem eu era. Depois veio o vegetarianismo (e o veganismo), a proteção animal… e cá estou eu. São 7 anos de transformações e aprendizados diários e sinto que tenho conseguido fazer com que as coisas que eu acho importantes e acredito sejam praticadas no meu dia a dia.

Nesses anos todos o que eu percebi é como quanto mais nos unimos, menos difícil fica. Ninguém se sobrecarrega, todo mundo como cidadão também se responsabiliza pelos problemas e juntos conseguimos pensar em soluções possíveis pra melhorar as coisas. E isso é muito massa, gente! Só precisamos encontrar uma causa com a qual nos identificamos, procurar pessoas que já atuam ou que desejam fazer algo e pensar, juntos, no que pode ser feito no momento.

E foi esse o assunto que escolhi falar essa semana no podcast: como podemos dar a nossa contribuição pra esse mundo melhor no qual desejamos viver. Sigamos caminhando nessa direção: no desenvolvimento da consciência, na educação, na união e na prática. !

Leituras: Talvez você deva conversar com alguém

Nos últimos dias do ano passado peguei esse livro pra ler. Não fiz conta de tudo o que li, mas em 2020 li bastante. Longe de mim querer cobrar produtividade na leitura, mas eu realmente gosto demais de ler. E leio de tudo, sem preconceito. Se vejo uma boa indicação de alguém que gosto, lá vou eu anotar na minha listinha (que nunca tem fim! Rs)

Passei janeiro inteiro lendo esse livro – ele tem 400 páginas – , mas não por isso. Fui saboreando a leitura: as histórias, as percepções, os dilemas… Fiquei naquela mistura de sentimentos de “não ler muito rápido para o livro não acabar” e de “me envolver com as histórias e querer saber como se desenrolariam”. Nesse livro a Lori (autora) conta sobre a sua vida pessoal (sua trajetória de estudos, trabalho, relacionamento, maternidade), compartilha histórias de alguns de seus pacientes (com os dados em sigilo, claro), mas também fala sobre suas sessões de terapia, dividindo conosco seus medos, angústias, dificuldades.

Gostei muito disso porque muitas vezes vemos os terapeutas como pessoas muito bem resolvidas emocionalmente, quando na verdade antes de serem terapeutas eles também são pessoas, que carregam bagagens com dores e alegrias como qualquer um de nós. Foi muito interessante ver esse lado vulnerável da autora e profissional.

Me envolvi e me emocionei muito acompanhando as histórias, fiz muitas anotações, tive muitos esclarecimentos e sinto que algumas coisas que li e que ressoaram muito com o momento que estou vivendo ainda estão tomando espaço aqui dentro de mim. E espero que tudo isso, mais do que conhecimento, possa se transformar em prática na minha vida, em algum momento.

Costumo dizer que é o livro que me encontra e não o contrário. Então, começar o ano com essa leitura foi muito especial. E se você, assim como eu, busca se conhecer e entender mais sobre as dores e delícias de ser humano, esse livro será uma excelente escolha nessa caminhada.

Descansar para prosseguir

Em janeiro tirei férias. Não escrevi nada, li pouco (porque tô saboreando cada palavrinha de um livro maravilhoso que tô lendo), assisti pelo menos uns 15 filmes, atualizei minhas séries, tomei banho de cachoeira e pedalei. Estou “só existindo” dentro do possível, fazendo as atividades que já havia me comprometido previamente. Aliás, acho que ainda vivo com a ideia das “férias escolares” no inconsciente, então, janeiro pra mim é um mês pra ir devagar.

É até engraçado como nos sentimos culpadas por fazer isso depois da vida adulta. Direto me pego pensando se eu deveria ter reduzido a velocidade justo agora, afinal, começo de ano é o momento perfeito pra começar as coisas. Mas a gente veio de um ano que virou nossa vida do avesso e em dezembro sempre rolar um acúmulo de tudo o que vivemos, as dores e as alegrias (que em 2020 foram sentidas com ainda mais intensidade), então eu tinha que parar. Mesmo que isso implicasse em “perder oportunidades”.

Essa semana, bem na última do mês e nos preparativos da volta do Podcast e demais atividades, li uma frase em uma ilustração da Isadora que fez todo sentido e que cabe pro nosso ano e pra nossa vida toda:

Quem já viveu no corre e conseguiu reduzir a velocidade, sabe que também pode rolar da gente se acomodar na marcha lenta. Ela é confortável e necessária muitas vezes, mas de vez em quando é preciso dar uma pisadinha no acelerador, sair desse local de conforto que é caminhar devagar, pegar um pouco de velocidade e sentir o vento batendo no cabelo. Não precisa ir do 0 aos 100km em segundos, mas dá pra encontrar o equilíbrio entre os momentos de reduzir e acelerar.

E agora, com o corpo e a cabeça descansados, dando um respiro também pra minha alma se (re)encantar com a vida, tô pronta pra começar 2021, aberta para as possibilidades e experiências que aparecerem. Agora é meu momento de pisar no acelerador, mas ao longo do ano também vou pisar no freio, parar na beira de estrada, descansar um ´cadinho, na sombra, pra depois retomar a viagem. Attraversiamo!

Por um 2021 (e uma vida) mais consciente


Não tem fórmula mágica que mude a nossa realidade da noite para o dia. E embora a gente saiba que não é no dia 1º de janeiro que os problemas de um ano (e de uma vida) vão acabar, a gente sente que o começo do ano traz uma energia de renovação. Recomeçamos a contagem dos dias na esperança de que dias melhores nos aguardam. Por aqui sigo com muita expectativa pela vacina, pela imunização e para reencontrar meus amigos queridos que só vejo através das telas. Não sei se a gente volta pro “normal” porque o normal trouxe a gente pra esse caos, então talvez precisemos pensar em outras saídas… Só que isso não é simples nem fácil.

Lá no final de 2019 com muita alegria lancei meu primeiro livro digital. A minha ideia foi escolher doze temas (um por mês, sobre uma área da vida) pra poder falar sobre. Trouxe algumas reflexões, algumas partilhas da minha própria experiência e algumas sugestões de mudanças. Se em cada mês a gente refletisse sobre um aspecto da nossa vida e pensássemos nas pequenas mudanças que poderíamos fazer, ao final do ano teríamos conseguido mudanças significativas em vários aspectos.

O que eu percebo que acontece é que talvez façamos resoluções demais. Queremos mudar tantas coisas que criamos metas impraticáveis e nos frustramos ao chegar ao final do ano sem conseguirmos nos manter firmes aos planos iniciais. Eu fiz isso por muito tempo até entender duas coisas que me libertaram:

  • não preciso mudar tudo de uma vez (posso dar pequenos passos nessa direção);
  • não é preciso esperar o começo do ano pra implementar mudanças nas nossas vidas.

Só que justo quando eu entendi tudo isso veio 2020 e colocou por terra as nossas “certezas”. Certeza mesmo a gente não tem de nada, mas de certa forma tínhamos um “certo controle” em relação as coisas, né? Então foi preciso adaptar a uma realidade completamente desconhecida, com muito medo, dúvidas, separações… Esse foi um ano que abalou completamente as nossas estruturas, mexeu com as nossas emoções e aflorou muitos sentimentos com os quais não foi fácil lidar.

Mas a gente chegou até aqui. Aos trancos e barrancos mas chegou. Com medo. Com saudade. Com o coração apertado. Foi preciso parar, dar um tempo, reavaliar as coisas, abandonar alguns planos temporariamente, mas a vida continuou acontecendo mesmo no meio desse caos. E é por isso que e sigo com esperanças e expectativas (só tentei fazer com que elas coubessem dentro da realidade que estou/estamos vivendo).

Nesse livro eu não trago fórmulas mágicas, receitas de sucesso nem nada do tipo. Eu compartilho propostas simples e realistas de mudar algumas questões no nosso dia a dia e na nossa forma de ver a vida. E são coisas que você pode escolher mudar em qualquer momento, independente de quando comece essa leitura. As mudanças mais significativas da minha vida não aconteceram em nenhum dia 1º de janeiro, então, acredito que todo momento é o momento ideal pra gente mudar qualquer aspecto da nossa vida que nos traga insatisfação e desconforto.

Para garantir seu livro basta clicar AQUI.

O primeiro episódio do ano do podcast é sobre esse assunto: expectativas realistas para 2021 (e pra vida). Feliz novo ciclo pra todos nós.

Tudo passa, mas às vezes demora

Confesso que não sou lá a pessoa mais paciente desse mundo e às vezes eu só queria ter um botão pra apertar em que tudo se resolvesse magicamente: aquele processo enrolado que deixa a vida amarrada, o trabalho que anda devagar, aquele mal resolvido com a amiga que nenhuma dá o braço a torcer… Seria bem bom, né? Um botãozinho e pronto. Tudo certo.

Pra mim nem sempre é fácil entender o tempo das coisas. Quer dizer, eu entendo racionalmente que algumas coisas levam tempo pra acontecer ou pra se resolver, mas aqui dentro os sentimentos viram uma bagunça: o que eu faço nesse tempo? Como lidar com essa espera?

Ao esperar, tenho a sensação de que não tenho controle e de que tô deixando a vida na mão do destino. Eu até gosto (mais na teoria do que na prática) daquela frase que diz que “tudo tem um tempo certo pra acontecer” e me pego agarrada nela pra poder lidar com coisas que não consigo resolver. Tem horas que fico de boa, mas tem horas penso que essa “força superior” na qual eu acredito só pode estar me trollando (até me pego imaginando a cara dos meus mentores espirituais rindo dos meus surtos).

2020 chegou colocando boa parte dos nossos planos e vontades em modo suspenso. Algumas coisas até conseguimos adaptar pra colocar em prática, mas muitas ideias foram pra caixinhas e sabe-se lá quando vamos conseguir tirá-las de lá. O que nos resta é o trabalho da paciência. Respirar fundo. Contar até 10. Até 100. Até mil. Dar umas surtadas. Passar um dia inteiro sem fazer nada, querer chorar e largar tudo pra vender miçanga na praia. Depois ficar empolgada com todo o e qualquer indício de que as coisas estão mudando.

Eu sei que uma hora vou rir desse desespero todo pra resolver as coisas. Que talvez um dia eu seja mais paciente e madura e sábia, que entenda de verdade esse lance do tempo das coisas, mas no momento eu tô me permitindo sentir o que vier: o riso, o choro, o prazer, o desespero. E sei que por mais que eu não compreenda isso agora, tudo vai passar. Tudo passa. Mas às vezes demora.