Como podemos contribuir para um mundo melhor?

Eu acredito demais que um mundo melhor será resultado de uma construção coletiva. Não tem um salvador, não tem um milagre que vai acontecer e pronto, todo mundo vivendo com justiça e dignidade. As nossas ações, aquilo a gente pratica, é o que realmente conta pra transformar esse mundo louco num lugar bacana pra todo mundo. Paulo Freire trouxe na proposta de práxis a ideia de fazer com nossas ações sejam capazes de transformar a realidade e de que nossa teoria e prática precisam estar conectadas e alinhadas. Acredito muito nisso.

E aí, pensando numa escala menor, como a gente pode contribuir pra que o mundo (e esse “mundo” pode ser o nosso entorno mesmo) se torne melhor? A gente sabe que existem muitas coisas pra serem melhoradas ou resolvidas e que algumas coisas estão além de nossas capacidades e cabem aos governantes (tem inclusive um episódio do podcast sobre como a gente não vai mudar o mundo sozinho), mas algumas melhorias podem muito bem partir da gente. E o que nós fazemos? Nós agimos ou nós terceirizamos essa responsabilidade? Afinal de contas, alguém tem que fazer alguma coisa, né?

Quando tive síndrome do pânico lá em 2013 (que foi o começo de uma mudança significativa na minha vida), eu achei que estivesse prestes a morrer. Os ataques de pânico me davam taquicardia, dificuldade pra respirar, dormência nos braços… Já fui até parar no hospital várias vezes achando que estivesse enfartando. E realmente pensei que fosse morrer aos 24 anos. Isso me abalou muito e me fez pensar na forma como eu vivia. O que eu estava fazendo da minha vida? Eu trabalhava, vivia minha vida fazendo minhas coisinhas… e aí? Era só isso? Eu não queria fazer a minha existência se resumir a isso. Foi então que comecei a mudar.

No passeio da Cãogonhal – grupo de proteção no qual sou voluntária

Começou com a ideia de ficar um ano sem comprar pra questionar minha forma de consumir. Junto disso, muitas leituras sobre autoconhecimento e espiritualidade e uma maior dedicação a me conhecer, a saber o que eu realmente queria e quem eu era. Depois veio o vegetarianismo (e o veganismo), a proteção animal… e cá estou eu. São 7 anos de transformações e aprendizados diários e sinto que tenho conseguido fazer com que as coisas que eu acho importantes e acredito sejam praticadas no meu dia a dia.

Nesses anos todos o que eu percebi é como quanto mais nos unimos, menos difícil fica. Ninguém se sobrecarrega, todo mundo como cidadão também se responsabiliza pelos problemas e juntos conseguimos pensar em soluções possíveis pra melhorar as coisas. E isso é muito massa, gente! Só precisamos encontrar uma causa com a qual nos identificamos, procurar pessoas que já atuam ou que desejam fazer algo e pensar, juntos, no que pode ser feito no momento.

E foi esse o assunto que escolhi falar essa semana no podcast: como podemos dar a nossa contribuição pra esse mundo melhor no qual desejamos viver. Sigamos caminhando nessa direção: no desenvolvimento da consciência, na educação, na união e na prática. !

Leituras: Talvez você deva conversar com alguém

Nos últimos dias do ano passado peguei esse livro pra ler. Não fiz conta de tudo o que li, mas em 2020 li bastante. Longe de mim querer cobrar produtividade na leitura, mas eu realmente gosto demais de ler. E leio de tudo, sem preconceito. Se vejo uma boa indicação de alguém que gosto, lá vou eu anotar na minha listinha (que nunca tem fim! Rs)

Passei janeiro inteiro lendo esse livro – ele tem 400 páginas – , mas não por isso. Fui saboreando a leitura: as histórias, as percepções, os dilemas… Fiquei naquela mistura de sentimentos de “não ler muito rápido para o livro não acabar” e de “me envolver com as histórias e querer saber como se desenrolariam”. Nesse livro a Lori (autora) conta sobre a sua vida pessoal (sua trajetória de estudos, trabalho, relacionamento, maternidade), compartilha histórias de alguns de seus pacientes e também compartilha como era fazer terapia com outro psicólogo (seus medos, angústias, dificuldades). Gostei muito disso porque muitas vezes vemos os terapeutas como pessoas muito bem resolvidas emocionalmente, quando na verdade antes de serem terapeutas eles também são pessoas, que carregam bagagens com dores e alegrias como qualquer um de nós. Foi muito interessante ver esse lado vulnerável da autora e profissional.

Me envolvi e me emocionei muito acompanhando as histórias, fiz muitas anotações, tive muitos esclarecimentos e sinto que algumas coisas que li e que ressoaram muito com o momento que estou vivendo ainda estão tomando espaço aqui dentro de mim. E espero que tudo isso, mais do que conhecimento, possa se transformar em prática na minha vida, em algum momento.

Costumo dizer que é o livro que me encontra e não o contrário. Então, começar o ano com essa leitura foi muito especial. E se você, assim como eu, busca se conhecer e entender mais sobre as dores e delícias de ser humano, esse livro será uma excelente escolha nessa caminhada.

Descansar para prosseguir

Em janeiro tirei férias. Não escrevi nada, li pouco (porque tô saboreando cada palavrinha de um livro maravilhoso que tô lendo), assisti pelo menos uns 15 filmes, atualizei minhas séries, tomei banho de cachoeira e pedalei. Estou “só existindo” dentro do possível, fazendo as atividades que já havia me comprometido previamente. Aliás, acho que ainda vivo com a ideia das “férias escolares” no inconsciente, então, janeiro pra mim é um mês pra ir devagar.

É até engraçado como nos sentimos culpadas por fazer isso depois da vida adulta. Direto me pego pensando se eu deveria ter reduzido a velocidade justo agora, afinal, começo de ano é o momento perfeito pra começar as coisas. Mas a gente veio de um ano que virou nossa vida do avesso e em dezembro sempre rolar um acúmulo de tudo o que vivemos, as dores e as alegrias (que em 2020 foram sentidas com ainda mais intensidade), então eu tinha que parar. Mesmo que isso implicasse em “perder oportunidades”.

Essa semana, bem na última do mês e nos preparativos da volta do Podcast e demais atividades, li uma frase em uma ilustração da Isadora que fez todo sentido e que cabe pro nosso ano e pra nossa vida toda:

Quem já viveu no corre e conseguiu reduzir a velocidade, sabe que também pode rolar da gente se acomodar na marcha lenta. Ela é confortável e necessária muitas vezes, mas de vez em quando é preciso dar uma pisadinha no acelerador, sair desse local de conforto que é caminhar devagar, pegar um pouco de velocidade e sentir o vento batendo no cabelo. Não precisa ir do 0 aos 100km em segundos, mas dá pra encontrar o equilíbrio entre os momentos de reduzir e acelerar.

E agora, com o corpo e a cabeça descansados, dando um respiro também pra minha alma se (re)encantar com a vida, tô pronta pra começar 2021, aberta para as possibilidades e experiências que aparecerem. Agora é meu momento de pisar no acelerador, mas ao longo do ano também vou pisar no freio, parar na beira de estrada, descansar um ´cadinho, na sombra, pra depois retomar a viagem. Attraversiamo!

Por um 2021 (e uma vida) mais consciente


Não tem fórmula mágica que mude a nossa realidade da noite para o dia. E embora a gente saiba que não é no dia 1º de janeiro que os problemas de um ano (e de uma vida) vão acabar, a gente sente que o começo do ano traz uma energia de renovação. Recomeçamos a contagem dos dias na esperança de que dias melhores nos aguardam. Por aqui sigo com muita expectativa pela vacina, pela imunização e para reencontrar meus amigos queridos que só vejo através das telas. Não sei se a gente volta pro “normal” porque o normal trouxe a gente pra esse caos, então talvez precisemos pensar em outras saídas… Só que isso não é simples nem fácil.

Lá no final de 2019 com muita alegria lancei meu primeiro livro digital. A minha ideia foi escolher doze temas (um por mês, sobre uma área da vida) pra poder falar sobre. Trouxe algumas reflexões, algumas partilhas da minha própria experiência e algumas sugestões de mudanças. Se em cada mês a gente refletisse sobre um aspecto da nossa vida e pensássemos nas pequenas mudanças que poderíamos fazer, ao final do ano teríamos conseguido mudanças significativas em vários aspectos.

O que eu percebo que acontece é que talvez façamos resoluções demais. Queremos mudar tantas coisas que criamos metas impraticáveis e nos frustramos ao chegar ao final do ano sem conseguirmos nos manter firmes aos planos iniciais. Eu fiz isso por muito tempo até entender duas coisas que me libertaram:

  • não preciso mudar tudo de uma vez (posso dar pequenos passos nessa direção);
  • não é preciso esperar o começo do ano pra implementar mudanças nas nossas vidas.

Só que justo quando eu entendi tudo isso veio 2020 e colocou por terra as nossas “certezas”. Certeza mesmo a gente não tem de nada, mas de certa forma tínhamos um “certo controle” em relação as coisas, né? Então foi preciso adaptar a uma realidade completamente desconhecida, com muito medo, dúvidas, separações… Esse foi um ano que abalou completamente as nossas estruturas, mexeu com as nossas emoções e aflorou muitos sentimentos com os quais não foi fácil lidar.

Mas a gente chegou até aqui. Aos trancos e barrancos mas chegou. Com medo. Com saudade. Com o coração apertado. Foi preciso parar, dar um tempo, reavaliar as coisas, abandonar alguns planos temporariamente, mas a vida continuou acontecendo mesmo no meio desse caos. E é por isso que e sigo com esperanças e expectativas (só tentei fazer com que elas coubessem dentro da realidade que estou/estamos vivendo).

Nesse livro eu não trago fórmulas mágicas, receitas de sucesso nem nada do tipo. Eu compartilho propostas simples e realistas de mudar algumas questões no nosso dia a dia e na nossa forma de ver a vida. E são coisas que você pode escolher mudar em qualquer momento, independente de quando comece essa leitura. As mudanças mais significativas da minha vida não aconteceram em nenhum dia 1º de janeiro, então, acredito que todo momento é o momento ideal pra gente mudar qualquer aspecto da nossa vida que nos traga insatisfação e desconforto.

Para garantir seu livro basta clicar AQUI.

O primeiro episódio do ano do podcast é sobre esse assunto: expectativas realistas para 2021 (e pra vida). Feliz novo ciclo pra todos nós.

Tudo passa, mas às vezes demora

Confesso que não sou lá a pessoa mais paciente desse mundo e às vezes eu só queria ter um botão pra apertar em que tudo se resolvesse magicamente: aquele processo enrolado que deixa a vida amarrada, o trabalho que anda devagar, aquele mal resolvido com a amiga que nenhuma dá o braço a torcer… Seria bem bom, né? Um botãozinho e pronto. Tudo certo.

Pra mim nem sempre é fácil entender o tempo das coisas. Quer dizer, eu entendo racionalmente que algumas coisas levam tempo pra acontecer ou pra se resolver, mas aqui dentro os sentimentos viram uma bagunça: o que eu faço nesse tempo? Como lidar com essa espera?

Ao esperar, tenho a sensação de que não tenho controle e de que tô deixando a vida na mão do destino. Eu até gosto (mais na teoria do que na prática) daquela frase que diz que “tudo tem um tempo certo pra acontecer” e me pego agarrada nela pra poder lidar com coisas que não consigo resolver. Tem horas que fico de boa, mas tem horas penso que essa “força superior” na qual eu acredito só pode estar me trollando (até me pego imaginando a cara dos meus mentores espirituais rindo dos meus surtos).

2020 chegou colocando boa parte dos nossos planos e vontades em modo suspenso. Algumas coisas até conseguimos adaptar pra colocar em prática, mas muitas ideias foram pra caixinhas e sabe-se lá quando vamos conseguir tirá-las de lá. O que nos resta é o trabalho da paciência. Respirar fundo. Contar até 10. Até 100. Até mil. Dar umas surtadas. Passar um dia inteiro sem fazer nada, querer chorar e largar tudo pra vender miçanga na praia. Depois ficar empolgada com todo o e qualquer indício de que as coisas estão mudando.

Eu sei que uma hora vou rir desse desespero todo pra resolver as coisas. Que talvez um dia eu seja mais paciente e madura e sábia, que entenda de verdade esse lance do tempo das coisas, mas no momento eu tô me permitindo sentir o que vier: o riso, o choro, o prazer, o desespero. E sei que por mais que eu não compreenda isso agora, tudo vai passar. Tudo passa. Mas às vezes demora.

Reduzindo a velocidade

Às vezes eu cito a mim mesma, sem pretensões, porque vejo que algo que eu disse continua fazendo muito sentido. Já escrevi uma vez em um texto aqui o blog que em tempos de avanço, recuar é um ato de coragem. Esse recuo pode ser uma parada ou pode ser simplesmente reduzir a velocidade e andar mais devagar.

Há quem pense que viver “no corre” é bom porque nos faz chegar logo “lá”, naquele lugar que a gente imagina ser maravilhoso. Esse “lá”, na nossa mente, é de fato incrível. É “lá” que a felicidade está. É “lá” que as coisas vão ser boas. Mas é engraçado que esse “lá” parece não chegar nunca. Por mais que a gente dê um passo na sua direção, ele está sempre um passo na nossa frente.

Mas de vez em quando a gente chega “lá” e é uma sensação muito gostosa. Temporariamente. A gente se sente viva, capaz, forte, incrível. Mas esse sentimento costuma passar e logo aparece outro “lá” pra gente chegar. É como se nunca pudéssemos estar satisfeitos com as coisas como elas já são ou já estão. E isso é o que nos mantém dependentes desse sistema. Nossa insatisfação é muito lucrativa porque é através dela que nos “mimamos” comprando coisas que muitas vezes nem precisamos.

Lembro que no meu aniversário do ano passado eu recebi uma carta linda de uma amiga muito especial e uma frase que ela escreveu me marcou muito: “é a caminhada que compensa o destino”. Se ficamos preocupadas demais com o destino não curtimos a caminhada, que é onde passamos a maior parte do tempo.

Mesmo que a gente reduza a velocidade, a gente vai chegar “lá”, só que de um jeito diferente. Talvez demore um pouco mais, mas em compensação vamos apreciar o caminho, vamos nos divertir, vamos curtir os processos sem pressa porque sabemos que uma hora ou outra a gente chega lá. E pra mim isso tem feito todo sentido. Percebi que estava me cobrando muito por coisas que não dependem de mim e por coisas que embora estejam nos meus planos, não sei quando poderão acontecer por inúmeros fatores externos. Nem tudo dá certo só porque a gente quer e ter isso em mente tem me feito me divertir mais no rolê da vida.

Por aqui sigo no meu ritmo, observando como as coisas mudam no decorrer dos dias, percebendo os períodos em que tenho mais disposição e fazendo o que precisa ser feito, mas também reduzindo a velocidade e parando pra descansar quando percebo que isso também é preciso, sem culpa. Uma hora eu chego lá.

Ps. esse foi o tema do episódio da semana passada do poscast. Para ouvir clique aqui.

Nós vamos mudar o mundo?

Quando decidi gravar um episódio sobre esse assunto para o podcast fiquei com receio de ser mal interpretada. Hoje em dia na internet muitas falas são distorcidas e rola cancelamento a toda hora. Mas felizmente acho que a forma como coloquei esse tema ficou clara o suficiente pra ninguém vir me questionar sobre o porquê de eu pensar dessa forma.

Por muito tempo eu achei que eu fosse realmente a responsável por mudar o mundo. Pensava que a minha ação, no meio de tanta coisa que acontece por aí, seria o estopim para o mundo finalmente mudar. Que prepotência da minha parte, né? Inclusive tem uma frase do Alex Castro que gosto muito e que depois de ler, se tornou o lema da minha vida: “Não ser egocêntrico ao ponto de achar que posso mudar o mundo. Não ser egocêntrico ao ponto de nem tentar.”

A partir do momento que tirei das minhas costas o fardo de “salvadora do mundo” senti que de fato consegui agir mais, por mais estranho que isso pareça. Quando compreendi que eu não poderia mudar o macro e as estruturas, cheguei à conclusão de que não só posso como devo agir no micro: minha vida, minha casa, minha família, meu grupo de amigos, minha vizinhança, minha cidade.

Assim ficou mais fácil pensar no que me cabe. A frase que é título desse post de forma alguma é uma maneira de me isentar da responsabilidade que me cabe. É justamente por entender que algumas mudanças não dependem de mim, que me dedico àquilo que posso fazer. Com essa consciência eu converso com meus amigos, estudo, dialogo e penso em como trazer essas ideias para o mundo real, que é onde as coisas realmente acontecem.

A internet tem uma potência imensa em disseminar mensagens. Se não fosse por ela você provavelmente não estaria lendo esse texto nem ouvindo meu podcast. Mas ela traz o conteúdo, a informação, a reflexão, o convite para a mudança. Cabe a nós decidir o que fazer com esse conteúdo e essa informação. Eu tenho decidido agir e espero que você também possa fazer essa escolha. Que consiga alinhar seus ideais e seu discurso com aquilo que faz no dia a dia. É assim, a minha mudança somada com a sua, que poderemos caminhar na construção do que acreditamos ser um mundo justo para todos os que nele habitam.

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Para ouvir o episódio do podcast sobre esse tema clique aqui.

Espiritualidade Tóxica

Já tem um tempo que eu deixei de praticar uma religião e tento viver diariamente os valores espirituais que me norteiam. Sinto que hoje em dia pratico muito mais do que eu pregava do que quando fazia parte de uma instituição. Consigo ver o divino nas pessoas, nos animais, na natureza e isso me faz tratar a todos com respeito. Não estou dizendo que com isso sou melhor do que ninguém, mas é isso que funciona pra mim.

infelizmente temos visto alguns discursos um pouco perigosos sobre uma espiritualidade que se abstém de olhar o entorno e de se envolver em debates coletivos e políticos pra não entrar em “bad vibes” e desalinhar os chakras. Temos que tomar cuidado para não ficarmos presos em nossas bolha de paz e luz, achando que apenas o fato de mentalizar positivo ou de orar vai resolver alguma coisa.

Fazer nossas orações, meditar, estar em comunhão com o divino, o todo, a força criadora é necessário (pra quem acredita), porém isso não nos exime de agir. Não podemos achar que isso é suficiene e fechar os olhos para as injustiças que acontecem todos os dias debaixo dos nossos narizes.

Não consigo conceber que nós estejamos nesse planeta pra satisfazer nossas vontades pessoais, consumir recurso e pagar boleto. Nosso aprendizado e nosso conhecimento precisa ser colocado a serviço do coletivo. Se nossa fé, nossa crença ou nossos valores morais não se transformam em ações concretas, a que eles servem? A meu ver é em uma perpetuação da desigualdade.

Não somos salvadores da pátria e nossas ações muito provavelmente não mudarão a realidade de tudo o que acontece, mas se mudarmos a nós mesmos agindo com o máximo de coerência possível, certamente seremos capazes de agir na construção do mundo que tanto desejamos.

Esse é o tema do episódio de hoje do Podcast. Para ouvi-lo basta clicar AQUI.

Pausas, análises, processos

Daqui a pouco faz um mês que eu não escrevo aqui. Acho que todos nós meio que perdemos a dimensão do tempo e a sensação é que agosto, o “mês eterno” passou num piscar de olhos. Que ano! E por que eu não tô escrevendo? Por que a escrita tá travada. Eu sento aqui, abro os muitos rascunhos que estão salvos, mas nenhum deles parece fazer sentido. Sabe quando você quer muito fazer uma coisa mas parece que algo te impede? É essa a minha sensação.

Tenho pensado muito sobre tudo isso: sobre as pausas, análises e processos pelos quais minha vida tem passado e entendido como eu funciono, compreendido melhor meus momentos, meu ritmo, como a vida acontece pra mim e tirando o peso da comparação com a vida de outras pessoas. Na internet é muito fácil a gente se comparar. E isso acontece por que nas redes a gente só vê o resultado, não o processo. A gente vê um pedacinho do que a pessoa é, a pontinha do iceberg de toda uma complexidade que é ser humano e achamos que “pra fulano tudo é fácil” quando na verdade criamos nossos avatares nas redes e fazemos uma curadoria do que compartilhamos.

No livro “Falso Espelho”, Jia Tolentino traz um conceito de teoria identitária muito interessante, de um sociólogo chamado Erving Goffman. Essa teoria fala diz que estamos representando o tempo todo em nossas interações sociais, como forma de criar uma impressão no público. Não que façamos isso de “má fé”, mas é natural que ajamos de formas diferentes, tipo quando a gente tá passando por um problema pessoal, mas no trabalho performa como se tudo estivesse bem (confesso que sempre tive muita dificuldade nisso). Goffman fala também quem em casa podemos ter a sensação de de não estarmos representando, de senti que estamos nos bastidores e isso faz muito sentido, ne? E olha só se não tem a ver com nosso comportamento nas redes sociais! Quem nunca olhou pra uma pessoa nas redes e pensou “essa pessoa ao vivo não é nada disso”? Esse livro tem me feito pensar muito e agora tô até lembrando de um vídeo que eu provavelmente já compartilhei aqui, mas acho que ilustra isso da performance nas redes.

Se por um lado temos acesso a muita informação, à possibilidade de conhecermos novas pessoas, culturas, de mostrar nosso trabalho, de dar voz a cada mais pessoas e causas, de ampliar nossa percepção do mundo, também estamos exaustas. O excesso de informação suga a nossa energia, faz com que tenhamos conhecimento de coisas sobre as quais não temos controle e não podemos mudar e de perceber toda a nossa impotência. Amplificamos nossas vozes através das redes sociais ao mesmo tempo em que criamos a ilusão da ação. Achamos que só o trabalho digital é importante e é claro que ele tem força, mas esquecemos que um discurso sem ações políticas e práticas, não provoca as mudanças significativas que queremos e precisamos no mundo.

E aí que entra a importância da pausa e da análise do que a gente tem feito. Essa é uma ação que precisa ser realizada com uma certa frequência para que possamos fazer os ajustes em nós e na direção na qual desejamos seguir. Só que essas análises precisam ser feitas sem pressa. Não é do dia pra noite. São processos diversos. Alguns levam mais tempo, outros menos. E se não respeitamos isso, criamos nossas personagens e vivemos uma vida que não é nossa, que é sobre o outro: suas opiniões e expectativas do que devemos ser.

Por aqui sigo num momento de revisão. Estar prestes a completar 32 anos tem me feito pensar onde cheguei e onde quero chegar, se faz sentido performar quem sou hoje ou se existem máscaras que precisam não apenas ser despidas, mas jogadas fora porque hoje não condizem com quem sou.

Ps. esse é o assunto também do Episódio 23 do Podcast. Para ouvir, clique aqui:

7 anos

Eu tenho uma “questão com número 7”. Já li que ele está associado à harmonia: 7 chakras, as 7 cores do arco-íris, 7 notas musicais… E agora, em 2020, completo 7 anos do início da minha jornada de autoconhecimento. Pelo menos a desse plano (por que acredito que não vivemos apenas essa vida e pronto, acabou, mas isso é outro assunto).

Hoje apareceu uma lembrança na minha rede social sobre a finalização do meu ano sem compra. Eu tinha muita coisa sobre ele no antigo blog que acabou se perdendo. Eram registros mensais de como estava sendo essa experiência, mas quero voltar aqui em outro momento pra contar como foi e os meus aprendizados a respeito disso.

O que queria compartilhar hoje é que não foi uma jornada fácil. Ao longo desses anos todos passei por momentos muito, muito difíceis em que eu só queria desistir. Esse despertar de que tanto ouvimos falar é um processo doloroso. Doloroso porque as nossas certezas se vão. Doloroso porque percebemos que nossos alicerces foram construídos sob a areia e não em um terreno sólido e firme e aí nos resta demolir ideias que estiveram conosco por tantos anos para reconstruir outras que estamos começando a conhecer.

E como é um caminho novo é fácil a gente se perder. Às vezes andamos por trilhas sem sinalização, erramos e precisamos voltar e começar de novo. Outras vezes seguimos por um caminho já aberto, percorrido por outras pessoas, com uma paisagem bonita e lugar pra descansar. Andamos ora sozinhos, ora acompanhados…

Falando de mim, da minha história, eu não mudaria nada. Se tudo o que eu passei me trouxe até aqui, eu agradeço. Agradeço pelas tempestades que sobrevivi, pelos amigos que fiz e dos quais me despedi, pelas pessoas com as quais convivi e que mostraram o que eu quero e o que eu não quero ser, pelos meus erros e acertos e por aprender a ouvir a minha intuição, que é a minha bússola interior, que me guia e me permite viver experiências que talvez eu não entenda agora, mas que em outro momento serei capaz de compreender.

Vou fazer 32 anos esse ano, mas sinto como se estivesse fazendo 7. Sete anos em que sinto que tenho mais consciência das minhas escolhas que encontrei razões pelas quais viver, razões que me motivam todos os dias a me aprimorar a ajudar a construir uma realidade diferente daquela que vivo hoje, pensando não só em mim mas em todos. O mundo não tem que ser bom só pra mim. Eu não posso me deitar tranquila enquanto outras pessoas não tem acesso ao que lhes é direito básico.

E assim eu sigo, esperando viver muitos outros anos e aberta para os aprendizados que a vida tem a me oferecer.