9 anos depois: eu continuo simplificando?

No final do ano tirei um tempinho pra pensar sobre os acontecimentos não só dos últimos 365 dias, mas da minha caminhada nesses últimos anos.

Se você é novo por aqui e não me conhece, prazer, sou a Bruna. A história desse blog começou em 2013. Naquele período eu estava passando por uma crise de síndrome do pânico que me fez questionar a minha vida como um todo e foi a partir desses questionamentos que tive meu primeiro contato com o minimalismo e a ideia de simplificar a vida.

No auge das minhas crises de ansiedade, nos momentos em que achava que fosse morrer por alguma doença que eu não tinha ideia qual era, uma pergunta ficava martelando na minha cabeça: “Se eu morresse hoje, com 24 anos, o que eu teria feito da minha vida?” E foi essa pergunta que me fez mergulhar num processo muito dolorido de autoconhecimento que me trouxe até aqui.

Nas minhas muitas pesquisas sobre tudo (porque naquela época o que eu mais fazia era ler e estudar sobre qualquer assunto que pudesse trazer algum sentido pra minha vida) descobri o minimalismo: a princípio como uma forma de vestir elementos mais neutros e simples e depois como um “estilo de vida” em que as pessoas buscavam ter poucas coisas.

É importante dizer que eu não era uma pessoa acumuladora ou que tenha se endividado por comprar, mas olhando bem, eu tinha coisa demais: coisas que não usava ou coisas que foram compradas de forma impulsiva pra preencher momentaneamente alguma tristezinha da vida. Eu poderia muito bem passar bons anos sem comprar nada, levando em conta a quantidade de coisas que eu tinha. Só que outra coisa me pegou: eu não tinha muito critério na hora de comprar. Só comprava. Não pensava na qualidade do produto, na matéria prima, se era um investimento que valia a pena tendo como base minhas necessidades e meu estilo de vida.

A partir dos depoimentos de pessoas que levavam uma vida minimalista, vi que aquela parecia uma forma interessante de viver a vida. Foi então que criei o blog para compartilhar minha experiência de ficar um ano sem fazer compras. Minha ideia era a de usar todas as coisas que eu já tinha, entender o que me levava a consumir sem tantos critérios e ver como isso impactaria minha vida.

No meio desse processo, outras transformações foram acontecendo: me reconectei com a espiritualidade (que sempre foi importante pra mim), fiz descobertas significativas na terapia, passei a pedalar (que foi um esporte que me transformou muito), questionei meu trabalho e o que eu queria fazer da vida, adotei um animalzinho e passei a atuar na proteção animal… Ao final do meu ano sem compras eu tinha me tornado uma pessoa muito diferente da que havia começado aquele projeto. E pra finalizar, na semana em que terminei o projeto, mais uma mudança: me tornei ovolactovegetariana (que se tornou uma das mudanças mais importantes da minha vida).

Após meu ano sem compras passei a questionar ainda mais o consumo: na época eu estava fazendo uma pós graduação em marketing e decidi escrever meu artigo sobre a relação entre marketing e consumo e foi uma experiência muito interessante. De lá pra cá me tornei vegana (que me fez repensar ainda mais meu consumo, não apenas por questões ambientais, mas também por levar em conta o uso de matéria prima animal nos componentes – além dos testes em animais).

Em 2016 conheci o conceito de simplicidade voluntária e encontrei nele algumas respostas que não encontrava no minimalismo. Com o passar do tempo, percebi que o minimalismo falava muito mais sobre soluções individuais sem levar em consideração o grande problema do consumo: o capitalismo e suas estruturas. E que somente questionando o sistema no qual estamos inseridos, buscando alternativas e cobrando responsabilidade do poder público e das grandes corporações é que teremos mudanças significativas em problemas como a desigualdade social e as mudanças climáticas. No episódio #61 do meu podcast falei um pouco sobre esse assunto.

Vamos falar então de como as coisas estão hoje, 9 anos depois do início dessa caminhada e analisando tudo o que vivenciei.

Já começo falando dos erros, que foram muitos: levei tudo a ferro e fogo, fui extrema em alguns aspectos (ou 8 ou 80, sabe?) e com isso construí uma relação pouco saudável com o dinheiro, pois passei a vê-lo como algo ruim; me desfiz de coisas no calor do momento e me arrependi; já quis largar tudo e sair por aí sem rumo, viver numa cabana, viver com o mínimo possível… Experimentei algumas coisas, mas percebi que não era mim. Que as experiências de outras pessoas podem ter dado certo pra elas, mas que a minha história era outra e que eu tinha que encontrar esse ponto de equilíbrio.

Compreendi, por exemplo, que armários cápsula não funcionam pra mim. E que embora eu seja vegana e defensora da simplicidade voluntária eu não tenho que me vestir de um jeito específico (tipo hippie ou então só com tecidos leves e soltos). Eu amo rock, amo me vestir de preto, amo bota. E que o mais importante é levar em conta o que faz sentido pra mim, pra minha forma de viver a vida.

Vestido: Repassa / Tênis: Ahimsa (marca de calçados veganos)

Tento priorizar a compra de itens de segunda mão (ultimamente tenho comprado pelo Repassa. Se você quiser comprar por lá, aproveita pra usar meu cupom de desconto: VIRANDOVEG15 pra ter desconto na primeira compra), revitalizar peças antigas (tô com um post no rascunho de um blazer que foi do meu avô, feito por um alfaiate em 1982 – nesse ano eu posto sobre essa história), trocar ou comprar em brechós… Mas também compro em lojas físicas ou virtuais, dando preferências pra pequenos produtores.

Nessa quase uma década de “simplificação”, sinto que meu grande desafio tem sido o de encontrar o equilíbrio entre viver as contradições de um sistema capitalista e seguir firme com os valores que norteiam a minha vida. Que “simplificar” é mais complexo do que simplesmente “destralhar” nossas casas e armários se repetimos as compras impulsivas e sem critérios. Que decisões individuais são sim, importantes e necessárias, mas que é através de políticas públicas e sociais que veremos mudanças significativas no mundo.

Sinto que, de fato, encontrei essa vida mais simples: me conheci melhor e aprendi a reconhecer meus limites; abandonei coisas (planos, pessoas, projetos, expectativas de outras pessoas) para fazer e viver o que acredito que faça sentido pra mim; me permiti mudar e fluir com os acontecimentos da vida e me comprometi a compartilhar minhas experiências e a construir, através das minhas ações diárias, pelo menos um pouquinho do mundo no qual eu gostaria de viver.

5 comentários sobre “9 anos depois: eu continuo simplificando?

  1. seus textos são sempre cheios de emoção, sinceridade e delicadeza, que em 2022 tenhamos a oportunidade de praticar o bem pra gente e para o planeta , com a convicção de que estamos no caminho certo

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  2. Oiiii! Eu sabia que eu conhecia você de algum lugar ahahhaa eu acompanhava a sua trajetória de não comprar mais nada durante um ano e utilizar só o que você tinha. Eu conhecia o blog nessa época, não comentava muito née ahhahaha
    Vou te confessar, eu sempre tive uma queda pelo minimalismo, porém não na moda e no consumo, mas no design e em decoração. Mas o que você comentou sobre o fato do minimalismo ser mais individual, achei bem interessante.

    Já faz uns meses que eu venho pensando sobre essa parte do consumo, eu sou muito consumista e isso me entristece em ver que as vezes eu compro coisas no impulso e não uso. Acaba sendo um momento e depois a gente cai na real né?!

    Eu espero que nos proximos anos você encontre o equilibrio e que possa nos fazer pensar e refletir com as suas experiências. Confesso, que essa busca do autoconhecimento e de entender certas coisas de mim mesma, eu busco há anos, e acho que o simplificar ele é bem mais amplo né?! ahhaha amei!

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    • Oi Maíra, bem vinda por aqui.

      Que interessante que você vem pensando em relação ao seu consumo. Acho muito válido. Esses dias li um trecho de um livro que dizia que a consciência é uma semente de transformação. A partir dela promovemos mudanças nas nossas vidas.

      Espero que vc também consiga encontrar o que busca. Um abraço!

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