Pausas, análises, processos

Daqui a pouco faz um mês que eu não escrevo aqui. Acho que todos nós meio que perdemos a dimensão do tempo e a sensação é que agosto, o “mês eterno” passou num piscar de olhos. Que ano! E por que eu não tô escrevendo? Por que a escrita tá travada. Eu sento aqui, abro os muitos rascunhos que estão salvos, mas nenhum deles parece fazer sentido. Sabe quando você quer muito fazer uma coisa mas parece que algo te impede? É essa a minha sensação.

Tenho pensado muito sobre tudo isso: sobre as pausas, análises e processos pelos quais minha vida tem passado e entendido como eu funciono, compreendido melhor meus momentos, meu ritmo, como a vida acontece pra mim e tirando o peso da comparação com a vida de outras pessoas. Na internet é muito fácil a gente se comparar. E isso acontece por que nas redes a gente só vê o resultado, não o processo. A gente vê um pedacinho do que a pessoa é, a pontinha do iceberg de toda uma complexidade que é ser humano e achamos que “pra fulano tudo é fácil” quando na verdade criamos nossos avatares nas redes e fazemos uma curadoria do que compartilhamos.

No livro “Falso Espelho”, Jia Tolentino traz um conceito de teoria identitária muito interessante, de um sociólogo chamado Erving Goffman. Essa teoria fala diz que estamos representando o tempo todo em nossas interações sociais, como forma de criar uma impressão no público. Não que façamos isso de “má fé”, mas é natural que ajamos de formas diferentes, tipo quando a gente tá passando por um problema pessoal, mas no trabalho performa como se tudo estivesse bem (confesso que sempre tive muita dificuldade nisso). Goffman fala também quem em casa podemos ter a sensação de de não estarmos representando, de senti que estamos nos bastidores e isso faz muito sentido, ne? E olha só se não tem a ver com nosso comportamento nas redes sociais! Quem nunca olhou pra uma pessoa nas redes e pensou “essa pessoa ao vivo não é nada disso”? Esse livro tem me feito pensar muito e agora tô até lembrando de um vídeo que eu provavelmente já compartilhei aqui, mas acho que ilustra isso da performance nas redes.

Se por um lado temos acesso a muita informação, à possibilidade de conhecermos novas pessoas, culturas, de mostrar nosso trabalho, de dar voz a cada mais pessoas e causas, de ampliar nossa percepção do mundo, também estamos exaustas. O excesso de informação suga a nossa energia, faz com que tenhamos conhecimento de coisas sobre as quais não temos controle e não podemos mudar e de perceber toda a nossa impotência. Amplificamos nossas vozes através das redes sociais ao mesmo tempo em que criamos a ilusão da ação. Achamos que só o trabalho digital é importante e é claro que ele tem força, mas esquecemos que um discurso sem ações políticas e práticas, não provoca as mudanças significativas que queremos e precisamos no mundo.

E aí que entra a importância da pausa e da análise do que a gente tem feito. Essa é uma ação que precisa ser realizada com uma certa frequência para que possamos fazer os ajustes em nós e na direção na qual desejamos seguir. Só que essas análises precisam ser feitas sem pressa. Não é do dia pra noite. São processos diversos. Alguns levam mais tempo, outros menos. E se não respeitamos isso, criamos nossas personagens e vivemos uma vida que não é nossa, que é sobre o outro: suas opiniões e expectativas do que devemos ser.

Por aqui sigo num momento de revisão. Estar prestes a completar 32 anos tem me feito pensar onde cheguei e onde quero chegar, se faz sentido performar quem sou hoje ou se existem máscaras que precisam não apenas ser despidas, mas jogadas fora porque hoje não condizem com quem sou.

Ps. esse é o assunto também do Episódio 23 do Podcast. Para ouvir, clique aqui:

2 comentários sobre “Pausas, análises, processos

  1. Completei os 30 pensando muito no quem eu quero ser e em quem, de fato, me tornei. E eu sinto a mesma sensação: tanta coisa que eu quero muito tocar pra frente mas, parece que não há forças. 2020 tá freud.

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    • Oi! Acho que os trinta são um período que mexem com a gente, nos fazem questionar muitas coisas. Talvez seja um momento de revisão e planejamento pra depois seguir pensando no que e como fazer, já que 2020 está bem pesado pra nós todas.
      Boa sorte na sua jornada.

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